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sábado, 11 de setembro de 2010

210) Quilombo da Razão

Extra, Extra! Faz poucos dias, iniciou suas atividades o Quilombo da Razão. Contando com a participação da inteligência de Paulo Roberto de Almeida, reluzente como os gumes de uma adaga, o blog pretende ser "uma posição fortificada, uma base de operações para incursões contra os irracionalismos, seja lá a cor que tiverem". Deposito muita esperança nesse quilombo.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
11 0255 set 2010.

terça-feira, 4 de maio de 2010

113) A criação de quilombos, por Denis Lerrer Rosenfield.


A criação de quilombos – Por Denis Lerrer Rosenfield

Publicado no Estado de S. Paulo em 14/02/2010 

(O Estadão está há 276 dias Sob Censura)




Há todo um processo em curso, encampado pela Fundação Palmares, pelo 
Incra e pelo Ministério Público Federal (particularmente a sua 6ª 
Câmara), de ressignificação da palavra quilombo, visando a enquadrar todas
as suas ações numa interpretação do artigo 68 do Ato das Disposições 
Transitórias da Constituição de 1988. Esse processo conta até com o 
apoio de setores da comunidade de antropólogos. Foi igualmente essa 
posição que fundamentou o Decreto 4.887, de 2003, estabelecendo os 
critérios de desapropriação baseados na autoatribuição e na autodefinição. 
Desde então, tais formulações só se têm reforçado.

A Constituição de 1988 é inequívoca no uso do conceito de quilombo, 
significando, na época, uma comunidade de escravos fugidios, mormente negros,
 que constituíram povoados em regiões longínquas com o intuito de oferecer 
resistência aos que vinham em sua perseguição. Ela é igualmente inequívoca ao 
assinalar, naquela data, as terras que eram efetivamente ocupadas, de forma 
continuada, por negros, entendidas como terras públicas ou devolutas. Concebia-se 
a existência de, no máximo, cem quilombos no País.

Ora, o movimento da dita ressemantização, assumido oficialmente pela Fundação 
Palmares, pelo Incra e pelo Ministério Público Federal, altera radicalmente os 
termos da questão, com o intuito de justificar invasões e contenciosos jurídicos. 
Calcula-se, a partir da nova significação, a "existência" no País de praticamente 
4 mil quilombos, podendo esse número ser ainda muito maior. Uma primeira 
estimativa, provisória, seria de 22 milhões de hectares a serem destinados a essa 
"nova reforma", agrária num sentido, mas, em outro, atingindo diretamente centros 
urbanos.

Um quilombo passa, então, a ser definido segundo uma identidade simbólica 
baseada na autoatribuição. Basta um determinado grupo autointitular-se quilombola,
 a partir de uma suposta comunidade de raça, religião e sentimentos, para que 
se estabeleça uma pretensão territorial. É interessante observar que não se trata 
mais de terras ou propriedades, mas de "territórios", supostamente fundados 
nessa identidade simbólica, cultural. O trabalho do antropólogo se reduziria, por 
assim dizer, a colher relatos orais que justificariam uma pretensão, de antemão 
reconhecida como justa.

Ocorre o que é denominado redimensionamento do próprio conceito de quilombo, 
sua ressemantização, num processo de construção teórica, que não se contenta 
com o que os constituintes de 1988 consideravam como sendo um quilombo. 
De um lado, temos o que a Constituição estabelece conforme o que era pensado 
com esse conceito; de outro, temos os antropólogos conferindo à Constituição um 
significado que não é dela, significado esse não pensado pelos constituintes. A 
situação política é assaz curiosa, porque os antropólogos se colocam na posição 
de verdadeiros constituintes, sem terem sido eleitos com tal finalidade.

A inversão é total.

Foi introduzida, graças a um grupo de antropólogos, uma distinção de cunho 
ideológico e político entre o quilombo propriamente dito, renomeado "quilombo histórico", 
e o quilombo então dito "conceitual", que seria o "verdadeiro" quilombo. Trata-se de 
uma oposição entre o que seria o "reconhecimento" de um quilombo pelo Estado, num ato 
oficial, administrativo, político e jurídico de consagração de uma realidade, e o que seria 
um ato próprio de criação, produto de uma ressemantização, uma nova atribuição 
de significado à palavra quilombo, um quilombo imaginário.

Observe-se que, no primeiro caso, estaríamos diante do que é denominado 
"quilombo histórico", reconhecimento de uma realidade dada, de algo 
existente, e, no segundo, de uma produção propriamente simbólica, à 
qual se seguiria uma atribuição de existência. Num caso, há o reconhecimento 
de algo existente, no segundo, a produção de uma nova existência, não anteriormente 
dada. Ainda nesta última alternativa, a produção de uma nova existência, a 
criação de quilombos, obedece a um projeto de ONGs e movimentos sociais, 
que se conjugam naquilo que vem a ser um empreendimento político, também 
denominado criação de "novos sujeitos políticos".

De fato, o quilombo histórico não serve à causa quilombola. Como a lei, no 
entanto, deve ser observada, e como eles se reivindicam do artigo 68 do Ato 
das Disposições Transitórias da Constituição, torna-se necessário empreender 
um processo de metaforização, no qual, a rigor, tudo passa a caber, na 
medida em que são os próprios antropólogos que conferem a símbolos 
culturais e religiosos uma realidade medida em acres e hectares. Para que 
a sua finalidade política seja preenchida, uma operação preliminar é condição 
imprescindível, a da "conversão simbólica", que deixa para trás, precisamente, 
o significado da palavra quilombo e, com ela, a própria Constituição.

O quilombo histórico é atestado pela própria sociedade brasileira, com suas leis 
e instituições administrativas, que tomam essa realidade em seu significado aceito 
e reconhecido. O dicionário é o veículo dessa aceitação e desse reconhecimento, 
tomado por válido durante décadas e séculos. Trata-se da condição mesma 
mediante a qual pensamos e nos entendemos, atribuindo o mesmo significado às 
mesmas palavras. Se assim não fosse, viveríamos entre loucos e insensatos, cada 
um atribuindo um significado diferente às mesmas palavras e instrumentalizando, 
por meio dessa atribuição de significados, a essa ressemantização, uma luta 
propriamente política.

Confúcio dizia: "Quando palavras perdem o seu sentido, o povo vai perder a 
sua liberdade." Muitas vezes, as palavras mudam para que novos significados 
sejam introduzidos, embora tais mudanças, frequentemente, sejam ditas 
meras mudanças nas palavras, sem alteração em seus significados. A linguagem 
jurídica, e mesmo moral, torna-se, então, um instrumento da luta política e 
ideológica.

Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS