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segunda-feira, 11 de abril de 2011

249) Para aquecer: alguns periódicos e boas análises.

Venho a'O Arqueiro Prudente mais de um mês depois da última postagem. O objetivo deste post resume-se à divulgação de noticiários com boas análises que descobri por indicação de amigos. O openDemocracy veicula análises políticas referentes aos mais variados lugares ao redor do mundo. O Japan Times e o South China Morning Times são periódicos em língua inglesa que eliminam a barreira dos ideogramas orientais para o público ocidental com interesse no que se passa por aquelas bandas.


Vinícius Portella


Porto Alegre,
11 0826 abr 2011.  

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

237) Alemanha e China criticam plano de recuperação econômica dos EUA.

Alemanha e China criticam plano de recuperação econômica dos EUA
Zhou Xiaochuan/AP
Para Zhou, medida pode ter impacto 'muito negativo' fora dos EUA
A Alemanha e a China criticaram nesta sexta-feira o anúncio de que o Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos Estados Unidos) injetará US$ 600 bilhões na economia americana até junho de 2011.
Em entrevista a um canal de televisão nesta sexta-feira, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, disse que os Estados Unidos não vão resolver seus problemas, mas sim "criar mais problemas para o mundo".
O chefe do Banco Central da China, Zhou Xiaochuan, também falou a respeito do plano.
"Se a política doméstica é a melhor para os Estados Unidos somente, mas ao mesmo tempo não é a melhor para outros países, ela pode causar um impacto muito negativo no resto do mundo", disse Zhou.
Ele pediu uma reforma urgente no sistema monetário internacional, mas não ofereceu sugestões.
O Fed anunciou na última quarta-feira que gastaria US$ 600 bilhões para comprar títulos do Tesouro americano, na esperança de que a injeção de dinheiro possa impulsionar a economia do país.
No entanto, a manobra deve enfraquecer o dólar, beneficiando as exportações americanas e encarecendo as importações de outros países.
'Incompetente'
Em pronunciamento sobre o tema, o vice-ministro das Relações Exteriores da China, Cui Tiankai, disse que o Banco Central americano tinha o direito de tomar ações sem consultar outros países antes, mas afirmou que "eles nos devem alguma explicação".
O ministro alemão Schaeuble disse ainda que "com todo o respeito, o programa de ação americano é incompetente".
"Dizer que injetarão mais dinheiro no mercado não vai resolver os seus problemas", declarou.
Ele disse ainda que o governo alemão teria conversas bilaterais com oficiais americanos e que também deve levantar o assunto na cúpula do G20 em Seul, na próxima semana.
Na última quinta-feira, o ministro das Finanças, Guido Mantega, também alertou que a medida americana pode prejudicar o Brasil e outros exportadores.

235) China promete apoio para Portugal sair de crise.

China promete apoio para Portugal sair de crise


AE - Agencia Estado
LISBOA - O presidente da China, Hu Jintao, e o primeiro-ministro de Portugal, José Sócrates, assinaram uma série de acordos comerciais neste domingo, mas não houve anúncio, como o esperado, de compra de títulos da dívida de Portugal por Pequim. Em visita à Grécia, no mês passado, a China anunciou a compra de títulos do governo da Grécia, além do fechamento de vários acordos comerciais.
"Estamos prontos para dar apoio, por meio de medidas concretas, aos esforços de Portugal para reduzir o impacto da crise internacional", disse Hu durante entrevista conjunta concedida pelos dois líderes. Hu também repetiu neste domingo uma promessa feita ontem, em Portugal, de dobrar as relações comerciais entre os dois países até 2015.
As instituições de crédito Millennium BCP e BPI assinaram um acordo com o Banco da China, um dos maiores entre os quatro mais potentes credores chineses, para identificar oportunidades de investimento na China, disse o governo de Portugal em nota.
A empresa de energia EDP fechou acordo com a China Power International com foco em energia renovável e cooperação na Europa, África e Brasil, diz a nota. O acordo também abre caminho para que o a empresa chinesa assuma uma parcela de participação na EDP, disse o presidente da companhia em paralelo à cerimônia. O governo português precisa reduzir sua participação de 25% na empresa para ajudar a ajustar as contas nacionais.
Os dois países anunciaram a assinatura de acordos nas áreas de turismo, telecomunicações e educação, mas nenhum investimento específico foi divulgado. "Estes acordos representam uma aposta nas relações econômicas dos dois países", disse Sócrates.
Portugal ocupa o posto de número 77 na lista de exportadores para a China. No ano passado, o país exportou 222 milhões de euros para a China e importou 1,1 bilhão de euros.
Hu chegou ontem a Portugal com sua esposa, Liu Yongging, e membros do governo chinês, além de cerca de 50 líderes empresariais. Ele veio da França, onde as autoridades chinesas assinaram mais de US$ 20 bilhões em contratos com empresas francesas. As informações são da Dow Jones. 

232) China aumenta pressão sobre EUA após medida do Fed.

China aumenta pressão sobre EUA após medida do Fed

 
PEQUIM (Reuters) - A China aumentou a pressão sobre Washington devido às últimas medidas do Federal Reserve para incentivar a economia norte-americana, com o vice-ministro das Finanças dizendo que os fluxos especulativos resultantes são um choque aos mercados globais.
Antes das reuniões da Apec e do G20 nesta semana, uma série de importantes economias alertaram sobre a decisão do Fed de injetar 600 bilhões de dólares adicionais ao sistema bancário dos Estados Unidos.
"Como um grande emissor de moeda global, para os Estados Unidos lançarem uma segunda rodada de 'quantitative easing' nesse momento, nós sentimos que não reconheceram a sua responsabilidade de estabilizar os mercados globais e não pensaram sobre o impacto da liquidez excessiva nos mercados emergentes", disse o vice-ministro das Finanças chinês, Zhu Guangyao, nesta segunda-feira.
Zhu disse que a China pretende ter "discussões francas" com os EUA sobre os planos de imprimir dinheiro.

quinta-feira, 18 de março de 2010

58) O Vespeiro Pequinês e as Estripulias do Camarada Bo no Império do Meio: tentativa de ascensão de uma nova estrela ao pavilhão vermelho.

Ascensão de líder local desafia PC chinês
Geoff Dyer, Financial Times
Valor Econômico, 16/03/2010 – pág. A12

Nova geração: Considerado populista, Bo Xilai ganha destaque que normalmente só é dado à cúpula do partido: apesar de não pertencer à cúpula do Partido Comunista, Bo Xilai foi a estrela da reunião anual do Legislativo chinês, que acabou domingo

No Congresso Nacional do Povo, que ocorreu nos últimos dez dias, um homem vinha dominando as discussões entre a elite reunida. Quando ele chegou 40 minutos atrasados para uma reunião no fim de semana, no Grande Salão do Povo, os espectadores foram atropelados pelo batalhão de jornalistas de TV que acompanhavam essa figura alta e fotogênica. Quem está provocando todo esse rebuliço, normalmente reservado aos astros do cinema, é Bo Xilai, o presidente do Partido Comunista na cidade de Chongqing, na China central.

Nos últimos seis meses, Bo está em uma cruzada que já lhe rendeu incontáveis manchetes de jornais e cutucou um ninho de vespas em Pequim. O governo de Chongqing vem realizando uma campanha geral contra o crime organizado que já levou a mais de 3 mil prisões - incluindo a de um juiz importante - e desencadeou clamores por medidas parecidas em todo o país. Bo também vem encorajando uma onda de nostalgia pela era Mao, que muitos percebem como menos corrupta. Os usuários de telefones móveis da cidade sempre recebem "mensagens de texto vermelhas", com frases famosas do Grande Líder.

A campanha de Bo está rompendo os laços que existem entre os funcionários locais do Partido Comunista e a crescente cultura de gângsters. Mas seu impacto está indo bem além das províncias. Para começar, indica que a batalha pela sucessão na liderança do partido em 2012 - potencialmente um período turbulento, quando 7 dos 9 membros serão substituídos - está ganhando velocidade. Se o governador de um Estado americano lançasse uma agenda que chamasse tanta atenção, a suposição seria de que ele estaria concorrendo à Presidência - e é exatamente isso que Bo Xilai está fazendo.

"Ele está tentando abrir caminho até Pequim", diz Huang Jing, professor da Universidade Nacional de Cingapura, sobre o ex-ministro do Comércio. "É uma aposta arriscada mas bem calculada para entrar na 'liderança da quinta geração' [pós-2012]."

As batalhas públicas de Bo também poderão mudar a maneira como a política é praticada num sistema dominado por acordos de bastidores e decisões consensuais. O presidente Hu Jintao exemplifica um certo tipo de político - competente, sério e habilidoso no trato com a burocracia interna do partido. Ao apelar para o apoio popular e relegar a elite política, o carismático e midiático homem de Chongqing está entrando num território novo - pode chamar isso de populismo com características chinesas.

"Ele é um dos novos políticos populistas chineses, que são mais acessíveis", afirma David Shambaugh, professor da Universidade George Washington, baseado em Pequim.

A popularidade de Bo pode marcar uma mudança no comportamento da próxima geração de líderes chineses, tanto em casa como fora do país, com uma maneira mais aberta e menos rígida, mas também potencialmente mais errática e, segundo temem alguns, nacionalista.

Há tempos Bo, hoje com 60 anos, é uma estrela política em ascensão. Filho do herói revolucionário Bo Yibo, ele cresceu em Pequim e a vida inteira esteve no Partido Comunista ou ocupando cargos no governo. Ele se tornou conhecido na década de 1990 como prefeito da cidade de Dalian, e depois como governador da Província de Liaoning, ambas no nordeste do país, antes de se mudar para Pequim para comandar o Ministério do Comércio em 2004, quando teve várias negociações tensas com Peter Mandelson, então comissário do Comércio da União Europeia. Ao promover agressivamente projetos de modernização urbana no nordeste, ele chamou a atenção daqueles que defendem a reforma econômica, mas suas campanhas contra a corrupção também estão lhe rendendo o apoio de grupos mais conservadores.

Entretanto, no congresso do Partido Comunista de 2007, ele viu dois membros de sua geração serem promovidos para o Comitê Permanente da cúpula do partido, formado por nove membros: Xi Jinping, que deverá assumir o lugar de Hu Jintao em 2012-13; e Li Keqiang, que deverá se tornar primeiro-ministro. Bo foi nomeado secretário do Partido Comunista da municipalidade de Chongqing, que vem crescendo em ritmo acelerado - tecnicamente é uma promoção, mas, aos olhos de alguns, é um passo para o lado.

Ele vem fazendo de tudo para que a cidade não se transforme em uma pasmaceira política. No verão passado, as primeiras prisões foram feitas em uma operação que recebeu o nome de "tornado anti-Tríade". A população acompanhou com atenção os detalhes sobre os gângsters da cidade. Uma das prisões de maior repercussão foi a de Xie Caiping, conhecida como "a madrinha do submundo de Chongqing", por causa de sua rede de cassinos (um deles ficava do outro lado da rua onde fica o prédio da Suprema Corte).

Rapidamente as prisões começaram a expor os tentáculos do crime organizado. Wang Li, um professor de direito da Universidade de Chongqing que escreveu um livro sobre gângsters, diz que o crime organizado começou a se ampliar depois de 2000, quando a economia chinesa começou a explodir. "Eles começaram a entrar em negócios legítimos como o mercado imobiliário, ameaçando outros interessados em leilões de terrenos para que não aumentassem seus lances", diz ele.

Os julgamentos também revelaram até onde vão os laços dos gângsters com o governo local, especialmente com a prisão de Wen Qiang, um ex-delegado de política e presidente do bureau de justiça da cidade, que é cunhado de Xie. O mais graduado dos mais de 50 funcionários do governo presos, ele está sendo acusado de aceitar 16 milhões de yuans (US$ 2,3 milhões) em propinas, além de estuprar uma estudante. Algumas das propinas ele recebeu de membros do governo que tentavam conseguir promoções.

Mais abrangente que outros esforços anticorrupção, esse vem sendo conduzido em público - tendo sempre Bo, formado em jornalismo, como "líder de torcida". As Tríades estão retalhando pessoas como açougueiros retalham animais", disse ele a jornalistas no ano passado.

Além disso, a campanha vem sendo acompanhada por uma revitalização dos símbolos da era Mao. E isso não envolve apenas as citações de Mao. Nas reuniões do partido, diante das câmeras de TV, ele gosta de liderar os membros em execuções de canções revolucionárias. No novo campus universitário da cidade, uma estátua de 20 metrosde altura do Grande Timoneiro se eleva acima das salas de aula e dos alojamentos que a rodeiam.

Bo não é o primeiro político a criar uma personadessas, tão amigável à mídia - o primeiro-ministro, Wen Jiabao, por exemplo, usou aparições na TV para organizar o esforço de socorro depois do terremoto de Sichuan em 2008, e às vezes se chama de Avô Wen, quando está em meio às pessoas comuns. Mas, numa era em que o Partido Comunistabusca uma nova cola ideológica para substituir as velhas realidades marxistas, Bo abraçou o manual do populismo com maior entusiasmo que qualquer outro.

"Ele está mostrando que qualquer que queira ser bem-sucedido precisa aprender como se destacar na mídia - esse é o atalho para a fama e o poder", afirma Bo Zhiyue, um acadêmico da Universidade Nacional de Cingapura. "Mas, no contexto chinês, você precisa conseguir um equilíbrio delicado entre querer fazer as coisas e certificar-se de que não vai alienar muitos amigos em Pequim."

Certamente a campanha anticorrupção de Chongqing embaraçou partes da elite política. He Guoqiang, um membro do Comitê Permanente, é um ex-presidente do Partido Comunista em Chongqing; assim como Wang Yang, hoje encarregado da Província de Guangdong e outro astro em ascensão que tem boa relação com a mídia e ambiciona um cargo mais graduado em 2012. Ambos agora enfrentam perguntas sobre como deixaram o crime organizado prosperar.

Isso também vem criando problemas para o presidente Hu, que está ciente do efeito corrosivo que a corrupção pode ter sobre a legitimidade do partido. Espalham-se pelo país clamores por medidas de combate ao crime organizado e seus políticos aliados, ao estilo de Chongqing. A campanha não só fez os esforços anticorrupção de Pequim parecerem inócuos, como as revelações no julgamento de Wen Qiang de que promoções dentro do partido são compradas e vendidas criaram uma pressão popular ainda maior por medidas moralizadoras. O veredito no caso de Wen ainda não foi anunciado.

Segundo Liang Jing, o pseudônimo usado por um comentarista político, "Bo Xilai transformou uma crise no governo local, que levou anos para se formar, em uma crise de opinião pública e política que é muito desfavorável para Hu".

Mesmo assim, não é apenas a elite política que está em alerta por causa da cruzada de Bo. Ele também vem preocupando defensores da reforma política que veem seu estilo como um passo atrás. Os críticos afirmam que sua tumultuada "campanha de massa" lembra a Revolução Cultural, e apontam para o surgimento de um culto à personalidade. (Um sucesso recente a circular na internet na China é uma música sobre Bo com letras que dizem: "Seus olhos são como um par de espadas cintilando na luz fria. Você permanece firme diante do mal. Os corruptos tremem à simples menção de seu nome".)

Lian Yue, um blogueiro conhecido, comentou: "Ver como é fácil para Chongqing lançar uma revolução cultural em pequena escala é uma tragédia para todo o povo chinês".

Esses temores aumentaram com a prisão de Li Zhuang, um advogado que representava um dos gângsters de Chongqing. Após o acusado ter declarado no tribunal que foi torturado pela polícia, Li foi acusado de encorajar seu cliente a mentir. Li, que inicialmente confessou, mas depois retirou a confissão, foi sentenciado a 18 meses de cadeia.

Embora Li seja uma figura controvertida nos círculos legais chineses, sua condenação deixou advogados apavorados. Segundo Mo Shaoping, o mais destacado advogado chinês especializado em direitos humanos: "Esse caso é um golpe devastador para todos os advogados. É um caso clássico em que a política substitui as leis e as regras".

Alguns observadores temem que o populismo de Bo possa estar mostrando o rumo que os futuros líderes chineses poderão tomar se a economia enfraquecer. "A tentação de se aproveitar do ressentimento e do nacionalismo será grande dessa maneira", afirma Huang Jing. "Seria muito perigoso se isso acontecesse, tanto para a China quanto para o resto do mundo."

Por todas essas razões, o destino político de Bo será observado atentamente. O professor Bo (sem parentesco) acredita que a popularidade de Bo Xilai é hoje tão grande que se a próxima liderança fosse decidida pelo voto dos 3 mil delegados do Congresso Nacional do Povo, ele seria escolhido presidente. "Da mesma maneira que em 2008 todo mundo estava falando de Obama, na China todo mundo está falando de Bo Xilai", diz ele. Essas decisões ainda são tomadas por um pequeno grupo de elite, mas outros analistas políticos acreditam que Bo tem uma boa chance de conseguir uma posição no Comitê Permanente, talvez no Ministério da Segurança.

Mesmo assim, Bo também fez muitos inimigos entre os políticos mais graduados, que não gostam de seu perfil midiático e o acusam de arrogância. Uma nova liderança só será escolhida daqui mais de dois anos, e os rivais ainda poderão atacar vazando histórias comprometedoras sobre ele ou sua família.

Há sinais de que Bo está ciente dos perigos. Artigos de jornais recentes sugerem que a campanha contra os criminosos de Chongqing está perdendo força. Em uma entrevista concedidas a jornalistas recentemente, ele ficou irritado quando lhe perguntaram sobre suas ambições políticas. "Estamos aqui para discutir o relatório sobre o trabalhodo governo entregue pelo primeiro-ministro Wen Jiabao", disse ele. A pergunta foi então apagada da transcrição online do "Diário do Povo". Na China, o populismo tem seus limites.

Corrida por cargos na sucessão de 2012 vai a pleno vapor
Financial Times, 16/03/2010

Ao que parece, a nova liderança da China foi acertada em um congresso do Partido Comunista em 2007. Os membros mais graduados do partido decidiram que em 2012-13, Xi Jinping vai assumir as funções de presidente do partido e a Presidência do país, atualmente ocupada por Hu Jintao; Li Keqiang de ser o próximo premiê.

Embora haja algumas dúvidas sobre o processo desde então - Xi não conseguiu uma esperada promoção no último outono chinês para a comissão que cuida dos militares -, a maior parte dos analistas acredita que a sucessão está nos trilhos.

Mas mesmo assim ainda há muito pelo que jogar. Com pouca transparência ou procedimentos estabelecidos, essas decisões de cúpula não são todas tomadas antes do último minuto. Mais importante é que a sucessão diz muito mais respeito que apenas os dois maiores cargos. Na hierarquia do Partido Comunista Chinês, o primeiro-ministro Wen Jiabao é na verdade o número três.

Desde a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, o partido vem tentando evitar ter uma figura dominante; as decisões mais importantes agora são tomadas por uma liderança coletiva. Acredita-se que o presidente Hu goza de certos poderes de veto e convocação e cancelamento de reuniões. Mas analistas afirmam que, por exemplo, a decisão de valorizar a moeda ou lançar um grande pacote de estímulo econômico é tomada pelos nove membros do Comitê Permanente do Partido Comunista. Assim, ser um membro do Comitê Permanente é uma posição muito mais influente do que estar no gabinete ministerial do governo dos EUA.

Na transição de 2012-13, entre 5 e 7 membros do comitê deverão se aposentar, o que significa que um grande número de funções importantes estará disponível. Os analistas acreditam que é justamente para uma dessas funções que Bo Xilai está se posicionando.

Alguns observadores acreditam que a corrida sucessória já está sendo sentida na vida política chinesa. E pode ser por isso que Pequim recentemente vem adotando uma posição diplomática mais afirmativa e, com os políticos temendo serem taxados de frouxos, concedendo sentenças mais duras a dissidentes.

"A sucessão pode ser um dos motivos pelos quais a situação está mais dura nos últimos meses", diz David Shambaugh, professor da Universidade George Washington. "Quando há incertezas, há também uma tendência de aversão aos riscos e um maior conservadorismo.
"

57) Contendas comerciais: um canarinho e um dragão sob mira de uma águia-careca.

Para EUA, Brasil e China enterram negociação
Assis Moreira
Valor Econômico, 18.03.2010

Os Estados Unidos estão demonizando o Brasil e a China, acusando os dois grandes emergentes de causarem dificuldades para o presidente Barack Obama na área comercial, revelam fontes com acesso direto aos negociadores com poder de decisão nos EUA. Um amontoado de queixas em relação ao Brasil e China foi o que mais ouviram autoridades que recentemente visitaram Washington. Na ocasião, a maior potência do planeta teria enviado os piores sinais possíveis para a área comercial.

No caso do Brasil, a administração Obama alega que a retaliação de US$ 830 milhões (incluindo patentes, remédios, filmes etc.) complica politicamente sua atuação no Congresso e, ao mesmo tempo, enterraria de vez tentativas da Casa Branca de retomar a negociação global em Genebra.

Na semana que vem, os 153 países membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) voltarão a examinar o que fazer com a combalida Rodada Doha de liberalização comercial, já que apenas um país, os EUA, estão bloqueando qualquer avanço. Houve uma tentativa de se marcar uma reunião ministerial, de maior peso, mas Washington a bloqueou. E a reunião de altos funcionários na semana que vem foi encurtada.

A avaliação na cena multilateral é que a retaliação brasileira está servindo de novo pretexto para os EUA desviarem a atenção da incapacidade do governo Obama de negociar, já que não tem condições, atualmente, de assinar nem um acordo comercial com o Panamá. Pelo clima em Washington, o sentimento de observadores é de que dificilmente a administração Obama terá condições de apresentar uma proposta de compensação ao Brasil nos próximos dias para evitar a sanção contra bens americanos.

Em Genebra, os americanos não tocam no assunto do algodão. A impressão é que os EUA querem não apenas que o Brasil não retalie, como peça desculpas por estar incomodando, notam certos observadores. Não apenas o Congresso está entrincheirado no apoio protecionista a seus agricultores, como a equipe de Obama mostraria uma inação, ou até uma incompetência, para tratar com os parlamentares que não querem nem ouvir falar de liberalização ou compromissos.

Uma negociação - na OMC ou bilateralmente - demanda, de todo modo, a reforma da lei agrícola americana. Só que o Congresso não quer mudar os programas para o algodão, os principais beneficiários de subsídios e com lobby fortíssimo entre os parlamentares. Eles não querem alterar nada para viabilizar uma negociação global, e não é a retaliação do Brasil que vai mudar essa situação, diz fonte que conhece bem a posição americana.

Há dois modos de agir quando se perde uma disputa na OMC. A União Europeia foi condenada na briga do açúcar com o Brasil e usou a decisão para facilitar a reforma de seu regime de subsídios, considerado ilegal. Já os EUA têm posição contrária e certos negociadores falam de intimidação bilateral.

Em relação à China, os torpedos também aumentaram. Com déficits público e comercial enormes, os EUA não cessam de acusar Pequim de manipular a taxa de câmbio e manter a moeda desvalorizada em relação ao dólar, o que torna as exportações chinesas particularmente competitivas, ao mesmo tempo que protege o mercado chinês contra produtos americanos.

Esta semana, 130 parlamentares republicanos e democratas enviaram uma carta ao Departamento do Tesouro, exigindo que o governo Obama imponha sobretaxa aos produtos originários da China. Longe de se intimidar, os chineses dizem que não vão alterar sua política cambial. E, por outro lado, cobraram dos EUA que sejam mais cuidadosos na administração econômica, porque estão preocupados com o desempenho da economia americana.

A China e o Japão, os dois maiores credores dos EUA, voltaram a diminuir seus estoques de títulos do Tesouro americano, em janeiro, quando a demanda estrangeira caiu para US$ 19 bilhões, comparada aos US$ 63 bilhões em dezembro. O estoque chinês ficou em US$ 889 bilhões e o do Japão, em US$ 765,4 bilhões.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

26) EUA: entre a diplomacia e o unilateralismo...

O presente texto foi retirado do blog de Paulo Roberto de Almeida, no seguinte endereço: (EUA: entre a diplomacia e o unilateralismo...). Concorde-se ou não com PRA, não há sombra de dúvida quanto à sua excelência e honestidade intelectual. Quanto a mim, tenho uma enorme afinidade quanto a seu pensamento, guardadas algumas ressalvas devidas, creio eu, mais a diferenças relativas a nossos temperamentos, a uma ou outra declaração tomada por mim como demasiado peremptória, do que a concepções incompatíveis. É claro que levo em conta o " muito de feijão que ainda tenho de comer" para poder me comparar a Paulo Roberto, mas sobre isso a passagem por mim selecionada d'O Príncipe diz muito.


Vinícius Portella


Porto Alegre,
22 0129 fev 2010


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Uma opinião emitida em novembro de 2009, mas não menos importante como reflexão atual.

Lapso de poder
Anne Applebaum
New York Times, 26/11/2009

Como dois cometas correndo um em direção ao outro, vindos de extremidades opostas do espaço, dois fenômenos diferentes em partes diferentes do mundo cresceram na consciência pública na semana passada. Separadamente, eles poderiam não ter tido importância cósmica. Mas juntos podem ser um sinal interessante de coisas que virão.

Na China, o presidente Barack Obama se encontrou com seu homólogo, o presidente Hu Jintao. Ele também se encontrou com o primeiro-ministro chinês, Wen Jibao. O primeiro recebeu mais atenção, mas o segundo foi mais interessante: Wen disse a Obama que "a China discorda da sugestão de um 'Grupo dos Dois'", segundo a agência de notícias chinesa "Xinhua".

"A China ainda é um país em desenvolvimento", disse, e "devemos sempre nos manter sóbrios a esse respeito". A China está deliciada em manter seu relacionamento econômico com os EUA, mas "persegue a política externa independente da paz e não se alinhará com qualquer país ou [bloco de] países".

Tradução: a China não vai cooperar para impor sanções ao Irã, a China não vai atrapalhar o programa de mísseis nucleares da Coreia do Norte e a China não vai ajudar a solucionar os problemas do Afeganistão, do Oriente Médio ou de qualquer outro lugar. Em suma, a China decidiu que não será um parceiro pleno dos EUA em política externa.

Aproximadamente ao mesmo tempo, os líderes da Europa estavam trancados em salas proverbialmente enfumaçadas (hoje sem fumaça), discutindo sobre quem deveria receber o novo cargo de "presidente" da União Europeia e quem deveria se tornar o novo "alto representante", ou ministro das Relações Exteriores, europeu.

Essas conversações representavam o auge de uma década de diplomacia, debates e referendos nacionais destinados a produzir uma política externa europeia mais unida e dar à Europa um único número de telefone que Obama possa chamar quando quiser conversar.

Resultado: o presidente da Europa será o primeiro-ministro belga Herman Van Rompuy, um político desconhecido fora de seu país. O ministro das Relações Exteriores da Europa será a britânica Catherine Ashton, uma burocrata desconhecida até em seu próprio país.

Candidatos de muito maior experiência e influência - incluindo o ex-primeiro ministro britânico Tony Blair e o ministro das Relações Exteriores sueco Carl Bildt - foram rejeitados, aparentemente por medo de que teriam mais experiência e influência do que os poderes de fato. O semanário "Der Spiegel", da Alemanha, anunciou esta notícia com a manchete "Europa escolhe ninguéns".

Tradução: a Europa pode ter um novo número de telefone, mas quando Obama ligar a pessoa do outro lado da linha ainda não será capaz de agir. A "Europa" não será uma entidade unificada capaz de coordenar uma política unificada no Irã, na Coreia do Norte, Afeganistão, Oriente Médio ou qualquer outro lugar tão cedo. Em suma, a Europa não pode se tornar um parceiro pleno dos EUA em política externa.

E assim ficamos com uma situação curiosa: os EUA não querem mais ser a única superpotência. O presidente norte-americano não quer mais ser o líder de uma única superpotência. Ninguém mais quer que os EUA sejam a única superpotência, e na verdade os EUA não têm mais condições de ser a única superpotência. Mas os EUA não têm um parceiro óbvio com o qual compartilhar o papel de superpotência, e se os EUA deixassem de ser uma superpotência nada e ninguém ocuparia seu lugar.

Isso poderia não ser o fim do mundo - alguns lugares problemáticos poderiam passar um longo período de negligência benigna - e poderia não durar para sempre. A Europa, quando contada como uma entidade única, ainda é a maior economia do mundo. A China, seja o que for, ainda é a economia de mais rápido crescimento no mundo. Mais cedo ou mais tarde, a simples necessidade de defender seus interesses econômicos poderia convencer uma ou ambas a começar a levar mais a sério o mundo exterior.

Isso significa que o governo Obama tem um problema, porém: ele chegou ao cargo prometendo trabalhar com os aliados, mas logo poderá descobrir que não há aliados com quem trabalhar.

A Europa ainda é nossa melhor esperança, porque os europeus compartilham a maior parte de nossos valores. Mas organizar sanções com uma Europa dividida - sem falar em uma operação militar - continuará sendo uma grande tarefa.

Enquanto isso, a China está adquirindo vastos interesses estrangeiros, negociando na África e na América do Sul, assim como na Ásia, e mantendo um vasto exército. Mas a China parece desinteressada em aderir a uma campanha internacional contra o terrorismo, a proliferação nuclear ou qualquer outra coisa.

Os militares e a segurança globais parecem, portanto, destinados a permanecer nas mãos dos EUA, quer eles queiram quer não.

A meio caminho de sua presidência, George W. Bush descobriu que tinha de abandonar o unilateralismo em favor da diplomacia. Hoje nos perguntamos: em algum momento de sua presidência Obama descobrirá que tem de abandonar a diplomacia em favor do unilateralismo?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Anne Applebaum: Jornalista e colunista do Washington Post, Anne Applebaun ganhou o prêmio Pulitzer pelo livro "Gulag: uma História". Escreve regularmente sobre política norte-americana e assuntos internacionais.