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sexta-feira, 19 de novembro de 2010

240)¬(P . ¬Q) ⊢ P ⊃ Q não é uma forma argumentativa válida

Hoje abateu-se sobre mim a sensação de que nada sei. E então um filme veio a minha mente e aquela questão pungente: o que fiz da minha vida? Mas o momento já não era de desespero; senão de uma certa serenidade ante os doze trabalhos que me aguardam e a necessidade de estabelecer objetivos e mobilizar meios para abandonar esta situação. Daí que a lógica se me faz tão importante: bengala branca tão cara aos cegos...


P.S: Penso que sejam interessantes os comentários no endereço de origem do que segue abaixo.


Vinícius Portella


Porto Alegre,
19 0102 nov 2010.   

¬(P . ¬Q) ⊢ P ⊃ Q não é uma forma argumentativa válida

"Não é o caso que ambos P e não Q logo se P então Q" é uma forma argumentativa válida na lógica clássica. Um exemplo de argumento válido com essa forma é o seguinte: Não é o caso que ambos, risco o fósforo e ele não se acende. Logo se risco o fósforo, então ele se acende.

Contra-exemplo de Geoffrey Hunter: Não é o caso que ambos: Geoffrey Hunter é solteiro e Geoffrey Hunter é não casado. Logo se Geoffrey Hunter é solteiro, então Geoffrey Hunter é casado

quinta-feira, 10 de junho de 2010

135) Diferença entre Ciência e Pseudociência: uma questão de atitude epistêmica.

Falsificação, pessoas e teorias

photo by Felipe Morinvia PhotoRee

As ideias de Popper sobre o que marca a diferença entre ciência e pseudociência parecem-me subtilmente erradas. Acertou ao pensar que a resistência à refutação é uma marca importante dessa diferença. Mas errou ao pensar que essa marca é uma característica das teorias em si, e não da atitude que as pessoas têm perante as teorias. 


Popper pensava que uma teoria pseudocientífica não era refutável. Mas isto é falso. Tome-se a astrologia. Não é difícil retirar dela afirmações falsificáveis, se com falsificável queremos apenas dizer que é logicamente possível fazer uma observação incompatível com a teoria. Por exemplo, podemos observar um deus a descer à Terra e a dizer “A astrologia é falsa”. Isto é uma observação e refuta a astrologia.


Mas é claro que não é este género de coisa que Popper tinha em mente. O que tinha em mente não era a mera possibilidade lógica, mas antes física ou metafísica: observar, por exemplo, que o João foi assassinado no dia em que o horóscopo vaticinava que tudo iria correr bem. Só que isto acontece vezes e vezes sem conta, com qualquer teoria pseudocientífica.

O que torna as teorias pseudocientíficas resistentes à refutação não é exclusivamente as propriedades lógicas dessas teorias, mas antes a atitude epistémica dos seus defensores. É verdade que as teorias pseudocientíficas são tipicamente mais vagas do que as científicas; mas isso é apenas uma questão de grau. O que faz a diferença fundamental não é isso, mas antes a atitude que as pessoas têm perante tais teorias. A razão pela qual as teorias científicas são precisas, apesar de todas terem começado por ser muito imprecisas, é as pessoas que fazem ciência procurarem activamente testá-las. A razão pela qual as teorias pseudocientíficas não são tão precisas é porque ao longo do tempo os seus defensores não procuram testá-las, mas apenas defendê-las. 


Popper viu um aspecto importante da diferença entre ciência e pseudociência. Esse aspecto é a refutabilidade. Mas pensou erradamente que essa é uma característica lógica das próprias teorias. Não é. É apenas uma característica da atitude epistémica das pessoas que fazem ciência, que difere da atitude epistémica das pessoas que fazem pseudociência. (Esta diferença de atitude depois influencia decisivamente a estrutura das instituições: num caso encara-se a refutação como parte integrante do trabalho intelectual; no outro, encara-se a refutação como uma ofensa, um opróbrio.) Quem tem uma atitude epistemicamente proba não se limita a permitir refutações: procura-as activamente e dá-lhes muita atenção. Quem não tem essa atitude, foge o tempo todo das refutações, recorrendo a todos os truques imagináveis — desde pôr em causa a lógica, que não põe em causa quando a lógica é favorável às suas ideias, até pôr em causa todas as instituições científicas, que também não põe em causa quando essas instituições lhes salvam a vida com medicamentos eficientes, etc.

Do meu ponto de vista o que faz a diferença entre ciência e pseudociência não é, primariamente falando, uma qualquer diferença nas propriedades das respectivas teorias, mas antes uma diferença de atitude de quem faz e estuda essas teorias. Claro, essa diferença de atitude acaba por influenciar as teorias -- tornando umas mais precisas e mais facilmente refutáveis, outras mais vagas e mais difíceis de refutar por se rodearem de sofismas e jogos de palavras.

E o que pensa o leitor?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

108) Plágios, tradutores e autores (ou variações de Kafka).


Plágios, tradutores e autores

Denise Bottmann, tradutora brasileira, tem agitado as águas pardas da melancolia editorial brasileira. Descobriu que uma prática infeliz de alguns editores brasileiros consiste em reeditar traduções antigas, mudando o nome do tradutor — para um nome fictício ou não, não interessa — fingindo tratar-se de nova tradução.

Não fosse o tradutor nos países de língua portuguesa (Portugal incluído) considerado um moço de recados, e esta prática seria naturalmente inaceitável e impugnável em tribunal. Pois imagine-se o que seria eu, como editor, pegar num romance qualquer com trinta ou quarenta anos (ou duzentos anos!), e que caiu no esquecimento, reeditá-lo e... tirar o nome do autor e enfiar-lhe outro nome qualquer. Evidentemente, num caso destes, o crime intelectual seria evidente. Já no caso dos tradutores as pessoas assobiam para o ar e fingem que está tudo bem.

Do meu ponto de vista, isto deve-se ao estatuto absurdo que tem o tradutor em Portugal e no Brasil, ao contrário do que ocorre em França ou na Inglaterra: na lusofonia, o tradutor não é considerado um autor, o que é inaceitável. Os nomes dos tradutores de países culturalmente mais sofisticados vêm na capa dos livros, e os tradutores têm direitos intelectuais sobre a sua tradução: são co-autores, juntamente com o autor original. É um trabalho intelectual criativo, único, irrepetível. E que dá muito, muito trabalho, para ser bem feito. É inaceitável usar o trabalho de um tradutor, eliminando-lhe o direito de autoria.

Do meu ponto de vista, já que as práticas editoriais fraudulentas, denunciadas pela Denise, são infelizmente muitas, é preciso legislar para proteger o tradutor. E um passo importante nessa direcção é passar a ser obrigatória a menção do nome do tradutor na capa de todos os livros traduzidos.

Denise tem sido perseguida pelos editores cujos plágios ela provou no seu blog. Dois editores brasileiros levantaram-lhe processos em tribunal — isto é kafkiano, pois é como um ladrão que levanta um processo ao jornalista que lhe denunciou os trabalhos nocturnos. Leia o blog da Denise e, caso concorde, assine esta petição. É tempo de pôr cobro a estas práticas.

terça-feira, 27 de abril de 2010

102) Bons Manuais de Filosofia.


Os bons manuais de filosofia são importantes, pois sem eles não há ensino de qualidade de filosofia e, em consequência, não haverá investigação de qualidade em filosofia. Além disso, os manuais aproximam o público leigo da filosofia e contribuem para uma maior compreensão que este possui da importância da filosofia. Segue abaixo uma lista com alguns bons manuais. Os livros que já foram divulgados no blog ou na revista do Critica não estão na lista:

De Como Fazer Filosofia sem ser Grego, Estar Morto ou Ser Gênio, de Gonçalo Armijos Palácios

101 Problemas De Filosofia, de Martin Cohen

Fique por Dentro da Filosofia, de Neil Turnbull

Filosofia para Principiantes, de Richard Osborne

O Porco Filosófico - 100 experiências de pensamento para a vida cotidiana, de Julian Baggini

Para que serve tudo isso? A filosofia e o sentido da vida, de Platão a Monty Python, de Julian Baggini

Uma introdução aos vinte melhores livros de filosofia, de James Garvey

Filosofia, de Jeremy Stangroom

Os Grandes Filósofos, de Bryan Magee

Os Arquivos Filosóficos, de Stephen Law

Filosofia - Um Convite, de Martin Hollis