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terça-feira, 24 de agosto de 2010

199) A maior reforma alemã do pós-guerra se aproxima.

ALEMANHA | 24.08.2010

Forças Armadas alemãs estão diante da maior reforma do pós-guerra

 
Forças alemãs são terceiro maior contingente no Afeganistão
Forças alemãs são terceiro maior contingente no Afeganistão

Segundo planos do ministro alemão da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg, a Bundeswehr ficará menor e mais eficiente. Serviço militar e civil obrigatórios deixarão de existir. Novo modelo deverá contar com voluntários.

 
A Bundeswehr está prestes a passar por sua maior reforma no pós-guerra. As mudanças nas Forças Armadas alemãs deverão não apenas reduzir seu orçamento, mas também provocar modificações estruturais que ainda são alvo de controvérsia no cenário político do país.
Segundo os planos revelados nesta segunda-feira (23/08) pelo ministro da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg, as alterações previstas reduzirão em um terço o número de soldados, que cairá de 252 mil para entre 165 e 170 mil.
"As Forças Armadas ficarão menores, melhores e mais eficientes", argumentou Guttenberg, que acredita que a reforma as tornará mais modernas do que no modelo atual.
O ministro alemão de Finanças, Wolfgang Schäuble, pretende cortar 8,3 bilhões de euros dos gastos militares como parte do plano nacional de austeridade que visa economizar 80 bilhões nos próximos quatro anos.
O orçamento anual destinado ao setor de defesa na Alemanha é de 31,2 bilhões de euros, o quarto maior das forças da Otan. Os Estados Unidos, que lideram a lista da Otan, gastam 13 vezes mais que a Alemanha. Reino Unido e França ocupam o segundo e terceiro lugar respectivamente.
Serviço obrigatório
Ainda segundo os planos futuros, o serviço militar deixaria de ser obrigatório, medida que poderia começar a valer já a partir de meados de 2011. Em vez de recrutar os jovens, o serviço militar do país empregaria cerca de 7.500 voluntários. Esse ponto da reforma, no entanto, é alvo de críticas.
"O total de 7.500 voluntários por ano está longe de ser o bastante para se obter jovens satisfatoriamente qualificados", argumentou Rainer Arnold, especialista em política de defesa da bancada social-democrata no Parlamento alemão. Para ele, seriam necessários, no mínimo, entre 20 e 30 mil voluntários. 
A chanceler federal, Angela Merkel, afirmou não ser contra o fim do serviço militar obrigatório, mas não quis se declarar favorável a um determinado modelo.
Apesar de o alistamento militar perder seu caráter obrigatório, o ministro Guttenberg ressaltou que esse item não será excluído da Lei Fundamental. "Algumas pessoas podem dizer que sabem como o mundo será daqui a dez ou vinte anos. Eu não. Por isso, é muito importante que o alistamento fique na constituição."
Outra exclusão

Também a obrigatoriedade do serviço civil, que é hoje uma alternativa ao alistamento militar, será suspensa. Entretanto, a atividade representa um grande apoio ao trabalho de diversas instituições sociais no país. Por isso, também a ministra da Família, Kristina Schröder, planeja substituí-lo por um serviço nacional voluntário.
A ministra espera atrair cerca de 35 mil homens e mulheres por ano para o novo serviço voluntário. O trabalho nas instituições teria seis meses de duração, podendo chegar a 24 meses em casos excepcionais, com um salário de 500 euros mensais.
"Não tenho a ilusão de que conseguiremos substituir completamente o que temos agora", disse a ministra, defendendo a qualidade do atual modelo. No entanto, Schröder destacou que o novo projeto ofereceria as oportunidades do serviço civil também às mulheres.
Em 2009, cerca de 68 mil homens foram convocados ao serviço militar, e outros 90 mil optaram pelo serviço civil.
Até a queda do Muro de Berlim em 1989, a Alemanha evitou participação em conflitos armados, limitando a atuação dos soldados a serviços de ajuda humanitária.
Nas últimas décadas, entretanto, a Bundeswehr participou de missões na Somália, no Kosovo, no Congo e no Afeganistão, onde a Alemanha possui o terceiro maior contingente das forças internacionais.
NP/rts/dpa/afp
Revisão: Rodrigo Rimon

domingo, 27 de junho de 2010

158) Enquanto, na Alemanha, o serviço militar é motivo de debate público...

Enquanto, na Alemanha, o serviço militar é motivo de debate público, aqui, no Brasil, ele não desperta nenhuma atenção e diz respeito unicamente a militares ou a estudiosos do assunto. Não só em questões militares, a burocracia estatal encampa certos assuntos, tornando-os acessíveis unicamente ao pessoal técnico. Encobre-os, dando margem a toda sorte de decisão ou manipulação (aqui não me refiro, propriamente, à prevaricação, mas a toda medida arbitrária, ensejada pelas brechas da lei, que pode redundar em ineficiência da máquina pública e ter grande autonomia em relação ao sistema de pesos e contrapesos que configuram o poder no jogo democrático). Todavia, a discussão não deve se dar divorciadamente de suas condicionantes técnicas. Esta matéria da Der Spiegel nos dá índices do abismo que separa nossas democracias.


Vinícius Portella

Porto Alegre,
27 2343 jun 2010.
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25/06/2010

Alemanha discute a eliminação do serviço militar obrigatório para os jovens

Der 
Spiegel
Michael Fröhlingsdorf, Sven Röbel e Christoph Scheuermann
  • Recrutas alemães participam de exercício 
militar de tiro durante treinamento em Berlim, na Alemanha
Recrutas alemães participam de exercício militar de tiro durante treinamento em Berlim, na Alemanha
Todos os anos, dezenas de milhares de jovens alemães do sexo masculino são convocados para o serviço militar obrigatório. Mas eles são simplesmente um peso para a Bundeswehr, que não tem necessidade de recrutas semi-treinados. Os recrutas passam grande parte do serviço militar encontrando maneiras de derrotar o seu maior inimigo: o tédio.
David (não é o nome real do rapaz) estava louco para prestar o serviço militar nas forças armadas alemãs, a Bundeswehr. Ele chegou até a pensar em se alistar como soldado regular profissional após completar o serviço militar obrigatório.

Leia mais sobre a polêmica na Alemanha:

Entretanto, em um dia de março David foi obrigado a concluir que as forças armadas não compartilhavam do seu entusiasmo. Ele estava de pé com outros recrutas recém-convocados no pátio do quartel de um batalhão de logística na Baviera. Os 36 jovens, a maioria de 18 anos de idade, formavam um grupo razoavelmente motivado. Mas os instrutores pareceram desencorajados ao verem David e os outros recrutas de pé no pátio. “Olhem só, temos novamente uma quantidade enorme deles”, disse baixinho um dos oficiais superiores. O que eles iriam fazer com esses jovens?
A questão de determinar o que deve ser feito com eles é atualmente o tópico de um debate acalorado em Berlim. Se o ministro da Defesa, Karl-Theodor zu Guttenberg, conseguir o que deseja, o serviço militar obrigatório será em breve eliminado. Embora até recentemente fosse um defensor aguerrido do serviço militar obrigatório, Guttenberg, que pertence ao conservador partido União Social-Cristã na Baviera (CSU, Christlich-Soziale Union in Bayern), o partido vinculado à União Democrata-Cristã (CDU, Christlich-Demokratische Union), partido da chanceler Angela Merkel, mudou de posição. Agora, Guttenberg, que tem a patente de cabo da reserva, disse a “Der Spiegel” em uma entrevista que “na prática, o serviço militar obrigatório acabará dentro de dez anos”.
Com essa declaração, Guttenberg chocou-se de frente com membros do seu próprio partido, especialmente Volker Kauder, o líder do grupo parlamentar conservador. Kauder afirma que o serviço militar obrigatório é uma preocupação central do seu partido, a CDU, e que ele é um “instrumento de ligação entre a sociedade e a Bundeswehr”. O líder da CSU, Horst Seehofer, que define a sua agremiação como “um partido da Bundeswehr”, afirma: “Nós dizemos sim ao serviço militar obrigatório”. A chanceler Angela Merkel, que considera o serviço militar obrigatório uma “história de sucesso”, conteve o ministro da Defesa, porque ela acredita que uma grande parcela dos seu eleitorado apoia o serviço militar.

Ultrapassado

O que está se vendo novamente são antigos e familiares rituais alemães. O serviço militar obrigatório sempre foi um dos grandes tabus da política alemã. Até a década de oitenta, centenas de milhares de homens ainda eram necessários para a eventualidade de um grande exército ter que ser rapidamente mobilizado para enfrentar as forças do Pacto de Varsóvia. Mas, com a implosão do Bloco Oriental, e com o fim da Guerra fria, o serviço militar obrigatório tornou-se ultrapassado.
Para a Alemanha, um país cercado de vizinhos amigos, a defesa nacional não é mais uma grande preocupação nacional. Os soldados da Bundeswehr estão atualmente lutando no Afeganistão ou supervisionando um embargo de armas ao largo da costa do Líbano como parte da força Unifil da Organização das Nações Unidas (ONU). Os jovens recrutas do exército não tem mais utilidade para ninguém. Mal treinados e negligenciados pelo governo, eles passam a maior parte do serviço militar esperando o tempo passar.
Mas agora existe a esperança de que a situação mude, já que o governo precisa apertar o cinto. Sem verbas para sustentá-lo, o serviço militar obrigatório provavelmente deixará de existir em breve. Autoridades do Ministério da Defesa calcularam que os gastos do governo com a Bundeswehr seriam reduzidos em quase 500 milhões de euros (US$ 610 milhões, R$ 1,2 bilhão) por ano caso o serviço militar obrigatório fosse abolido.
Atualmente, o serviço militar obrigatório dura nove meses, que consistem de três meses de treinamento básico e seis meses passados em um quartel em algum lugar na Alemanha. Seis meses em um quartel não dão a impressão de serem necessariamente um período muito grande, mas o tempo pode parecer mais longo para pessoas que não sabem o que se espera delas. Na verdade, ninguém sabe o que deveria fazer. David, o entusiasmado jovem recruta, não sabe, os seus colegas do batalhão de logística também não, e praticamente nenhum dos 60 mil jovens alemães que prestam o serviço militar sabe que se espera deles. E nem mesmo a Bundeswehr tem ideia do que deveriam fazer esses recrutas.

Passando os dias no ócio

É por isso que muitos recrutas, após completarem o treinamento básico, aprendem como passar o tempo quando não há nada para fazer. Eles aprendem a passar horas, dias, semanas e meses no ócio, a matar o tempo percorrendo trajetos curtos e sentando-se em cadeiras de escritórios, e também a como sonhar acordado quando estão na respectiva unidade, escritório, corredor, sala e pátio de quartel. Essencialmente, eles aprendem a arte de cultivar o ócio. No decorrer desse processo, eles se tornam preguiçosos, tolos ou criativos, e às vezes as três coisas. Eles engajam-se em atividades como corridas com sacos de dormir, que gravam com as câmeras dos seus telefones celulares. A Internet está repleta de vídeos desse tipo.
Ao ser avaliado sob um ângulo positivo, o serviço militar obrigatório se constitui em uma festa gigantesca de nove meses de duração para um bando de jovens do sexo masculino (na Alemanha as mulheres estão isentas do serviço obrigatório). Mas qual é o objetivo disso tudo? Qual foi o objetivo do governo ao convocar 63.413 homens para o serviço militar no ano passado? Por que o Estado interfere nas vidas de tantos jovens, ainda que não seja capaz de explicar a eles o que exatamente deveriam fazer ao chegarem nos seus quartéis?
Muitos recrutas acreditam que o governo sabe muito bem por que está convocando-os e privando-os da sua liberdade durante nove meses. Mas a verdade é mais prosaica do que isso: o governo não sabe por que está fazendo isso. Se soubesse, ele trataria os jovens de maneira diferente. Cinco décadas após ter sido criado, o serviço militar obrigatório transformou-se em uma máquina enorme que é alimentada com homens jovens e que produz nos quartéis um desemprego em massa organizado pelo governo.
Os soldados inventaram um termo para definir esse tipo de atividade cujo único objetivo é fazem com que eles pareçam estar ocupados. Eles chamam isso de Dummfick (que pode ser traduzido mais ou menos como “um estúpido perdendo tempo”).

Leia mais notícias de jornais internacionais:

Limpando armas limpas

Pouco após ter se apresentado para o serviço no seu batalhão de logística, David recebeu a ordem de limpar algumas armas. Só havia um problema: as armas já estavam limpas. Na verdade, elas nunca tinham sido usadas. Alguns diriam que o objetivo era permitir que ele praticasse, mas David já havia aprendido a limpar armas durante o seu treinamento básico. Não obstante, ele sentou-se em uma cadeira defronte à sala de armas, tendo uma metralhadora MG 3 limpa à sua frente, e desmontou, poliu e tornou a montar a arma. Desmontar, limpar e tornar a montar, hora a hora, dia a dia – é assim que os recrutas passam o tempo.
David diz que, para piorar a situação, o quartel estava totalmente lotado, com quatro camas de campanha em cada quarto. Alguns dos seus colegas soldados tiveram que guardar os seus equipamentos e pertences no sótão porque não havia espaço para armários extras no quarto.
Após concluir o segundo grau, David, que veio de uma pequena cidade no Estado de Hesse, no oeste da Alemanha, sentiu-se tentado pela possibilidade de obter educação de nível universitário na Bundeswehr e de seguir uma carreira como oficial da força aérea. Mas a sua euforia durou pouco. Duas semanas depois, ele foi transferido da sala de armas para o departamento de contabilidade do quartel, onde há simplesmente pouquíssima coisa a se fazer.
Pelo menos ele não teve o destino de um recruta que servia em um batalhão de transportes no oeste da Alemanha, que foi incumbido de tomar conta de um telefone e de atender às ligações oficiais recebidas no aparelho. A tarefa era extremamente monótona, porque o telefone nunca tocava – durante semanas a fio. Foi só quando um supervisor ordenou que posição dos móveis do escritório fosse modificada que o recruta percebeu a tomada de telefone atrás de um armário. Ele constatou então que o telefone não estava sequer conectado.

“Serviço do tipo ficar por aí”

Mas em vez de utilizar tais relatos como um argumento para a abolição do serviço militar obrigatório, o Bundestag, o parlamento alemão, aprovou na semana passada apenas o encurtamento do período de serviço, de nove para seis meses, a partir de 1º de julho. A frente CDU/CSU, juntamente com o seu parceiro menor de coalizão, o Partido Democrático Liberal (FDP, Freie Demokratische Partei), concordou com o período de serviço militar obrigatório de seis meses durante as negociações entre os membros da coalizão. Isso foi um acordo entre o liberal FDP, que deseja eliminar completamente o serviço militar obrigatório, e os conservadores, que rejeitam a ideia. No entanto, o acordo só intensificou o dilema, já que é possível que os recrutas sejam utilizados com ainda menos eficiência durante este período de serviço mais curto.
“Os benefícios militares e pessoais do serviço militar básico precisam ser pelo menos iguais”, afirma Hellmut Königshaus, o comissário parlamentar para a Bundeswehr. Caso contrário, argumenta Königshaus, o recrutamento entraria em conflito com a constituição da Alemanha. Königshaus recebe ocasionalmente cartas de soldados que se sentem desestimulados e reclamam das tarefas sem sentido que têm que fazer. No entanto, observa Königshaus, “pode-se deduzir que os serviços do tipo 'ficar por aí' entre os recrutas estejam mais disseminados do que refletem as reclamações”.
Onze anos atrás, o então ministro da Defesa, Rudolf Scharping, encarregou uma comissão de encontrar maneiras de tornar a Bundeswehr mais moderna, mais eficiente e mais satisfatória no que se refere à relação custo-benefício. A comissão, liderada pelo ex-presidente alemão Richard von Weizsäcker, discutiu a possibilidade de acabar com o serviço militar obrigatório, mas Scharping se opôs à ideia, e hoje em dia ele ainda defende o serviço compulsório. Em abril último, o ministro da Defesa Guttenberg também criou uma comissão para estudar reformas. Os resultados deverão ser anunciados em setembro.

Jogando pôquer

Até lá, os novos recrutas continuarão chegando, e eles estarão mais interessados em matar tempo do que em fazer qualquer outra coisa. Quando David foi transferido para o escritório administrativo, três outros soldados já se encontravam lá, ocupados em gerenciar o grande vazio em que foram jogados. Como após a chegada de David só havia três cadeiras para os quatro soldados, um deles estava sempre de folga no seu quarto ou recostado em um balcão no corredor. David diz que o fato menos entediante do dia era fazer o trajeto diário entre o seu escritório e a agência dos correios do quartel, que ficava a 300 metros de distância. Ele também passava o tempo tentando superar o seu recorde no jogo de cartas Paciência no computador do escritório, ou jogando pôquer online ou dados com os colegas. David conta que em certos dias ia direto para a cama no final da tarde.
Muitos potenciais soldados têm uma boa chance de não serem convocados. Dos 417.300 candidatos potenciais ao serviço que passaram por um exame médico no ano passado, quase 43% foram rejeitados por serem considerados “inaptos para o serviço militar” - um exército de inválidos composto de 178.325 homens, ou o equivalente a cerca de doze divisões de exército. E esse número acaba sendo também politicamente conveniente.
O número de homens considerados inaptos para o serviço militar vem crescendo há anos. “Os números apontam para um declínio significativo da forma e da capacidade física geral”, escreveu o ex-comissário parlamentar para as forças armadas, Reinhold Robbe, no seu relatório anual de 2007. Ele responsabilizou o estresse emocional, o aumento do uso de drogas ilegais ou prescritas por médicos, bem como a televisão e os computadores por esse déficit. Robbe pintou um quadro sombrio, segundo o qual quase a metade daqueles que poderiam servir as forças armadas consiste de um bando de jovens desajustados que passavam o tempo fumando maconha em frente aos seus PlayStations enquanto se empaturravam de pizza.

Elevando o padrão

Mas a Bundeswehr também não tem interesse em um grande número de novos recrutas. Eles custam dinheiro e usam espaço e tempo pessoal valiosos. Como o objetivo é transformar a Bundeswehr em um exército de soldados treinados para missões individuais e campanhas de intervenção, os soldados que não podem ser enviados para o exterior constituem-se simplesmente em um peso morto. Para pelo menos manter a aparência de justiça no processo de seleção para o serviço militar, os padrões de aptidão estão sendo constantemente elevados, reduzindo desta forma o número de candidatos aptos.
No processo de seleção de 2009, por exemplo, aqueles que eram inaptos para o serviço foram eliminados primeiro, seguidos pelos que rejeitaram o serviço por questão de consciência, por policiais e por bombeiros. Como resultado, apenas 96.185 cartas de convocação foram enviadas, e dezenas de milhares destas foram anuladas por outros motivos. Graças à superação do limite de idade, das anulações das cartas de convocação e dos atrasos, ou simplesmente às “razões de ordem organizacional”, somente 68.304 jovens receberam a ordem para se apresentarem. Destes, 4.891 deixaram as suas unidades nas primeiras quatro semanas. No fim das contas, sobraram 63.413 recrutas que deveriam passar pelas etapas necessárias para servir o seu país.
Para implementar as exigências políticas, os exames médicos para o serviço militar são repletos de absurdos criados para proporcionar às juntas de alistamento militar a maior gama de recursos possível no seu esforço para identificar os candidatos inaptos. Segundo uma dessas regras, os recrutas que forem alérgicos a aipo são considerados inaptos para o serviço militar. Na Bundeswehr, o aipo é usado em sopas de carne e legumes, entre outras coisas.

Critérios arbitrários

Aqueles que são alérgicos a picadas de abelhas e vespas também são considerados inaptos para o serviço militar. E os jovens que são incapazes de tolerar drogas profiláticas contra a malária e a febre amarela também são mandados para casa – mesmo que nenhuma dessas doenças tenha sido identificada na Alemanha na história recente do país, e apesar de os recrutas alemães jamais terem sido enviados para servir em selvas tropicais.
Por mais estranho que pareça, os jovens que se registram como objetores de consciência, antes ou durante os exames médicos, têm menos chance de serem dispensados do serviço. Eles têm que realizar um “serviço civil” alternativo, conhecido como Zivildienst, que consiste tipicamente de fazer trabalhos sociais em locais como hospitais ou residências para aposentados. Ao contrário da Bundeswehr, o Departamento Federal de Serviço Civil conta com vários clientes que gostam de empregar mão de obra barata, como por exemplo os serviços de enfermagem particulares.
Por outro lado, os procedimentos empregados nas juntas distritais de alistamento são frequentemente arbitrários. Todos sabem que as autoridades de recrutamento já mandaram para casa recrutas que tinham cáries, mas decretaram que recrutas curados de fraturas sérias, nas quais houve fragmentação óssea, estavam aptos para servir.
Com essas práticas, a Bundeswehr conseguiu também alienar os recrutas entusiasmados. Sven, um jovem de 21 anos, da cidade de Hanôver, no norte da Alemanha, foi incumbido de trabalhar como médico após o treinamento básico. No início ele pensou: “Vou aprender algumas técnicas médicas que poderei utilizar mais tarde”. Mas, em vez disso, Sven aprendeu apenas a usar um monitor de pressão arterial. Assim que aprendeu a tarefa, disseram a ele para ir de leito em leito, pouco após os seus camaradas acordarem de manhã, e perguntar a cada um se os seus intestinos estavam funcionando bem.

Lágrimas de tédio

Se alguém digitar as palavras “Bundeswehr” e “Langeweile” (“tédio”) na plataforma de vídeo YouTube, o tamanho do grande vazio ficará ainda mais claro. Os vídeos que surgem mostram recrutas alemães travando batalhas com o seu maior inimigo: o tédio.
Em um dos vídeos, um soldado usando um uniforme camuflado e uma máscara de gás dança ao som de uma música techno, usando uma vassoura como companheira de dança. Em um outro filme, os soldados jogam “derrubar da cama”, que consiste em jogar os companheiros no chão, virando os seus colchões. E há o “Bundeswehr Twist”, no qual recrutas usando uniformes camuflados, capacetes de aço e máscaras contra gás dançam o dia todo. E há ainda o filme no qual os jovens sentados em uma sala usam fita adesiva para depilarem as coxas uns dos outros.
Em um outro vídeo, os soldados amarram capacetes de metal aos seus cotovelos e joelhos e saltam de quatro pelo assoalho de linóleo, realizando uma “corrida de tartarugas”. Em um outro, os homens enfiam-se em sacos de dormir militares, como se fossem lagartas gordas, e a seguir rolam pelo piso do quartel – sob os aplausos dos camaradas.
Um vídeo de três minutos de duração mostra um soldado sentado em uma cadeira. Ele está tão cansado que mal pode manter os olhos abertos. O rapaz é uma figura cômica de aparência triste, mas ele é também uma alegoria maravilhosa do absurdo completo que é o serviço militar obrigatório. Naturalmente, há também vários vídeos de soldados bebendo e vomitando.
Após quatro semanas sem fazer nada no escritório administrativo do seu batalhão de logística na Baviera, David percebeu que estava perdendo o seu tempo. Ele foi até o escritório do supervisor, onde preencheu um formulário retroativo de objetor de consciência. Atualmente ele realiza serviços comunitários em uma agência de enfermagem.
Tradução: UOL

domingo, 4 de abril de 2010

74) Acordo Brasil-EUA pode originar base “multinacional e multifuncional”.


Por sugestão da Polícia Federal, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu ontem com o comandante do Comando Sul dos EUA, tenente-brigadeiro Douglas Fraser, a proposta de criação de uma base “multinacional e multifuncional” que teria sede no Rio de Janeiro.
A base formaria, com duas já existentes, em Key West (EUA) e em Lisboa (Portugal), o tripé de monitoramento, controle e combate ao narcotráfico e contrabando, principalmente de armas, além de vigilância antiterrorista.
Douglas Fraser passou o dia de ontem em Brasília. Após reunião de trabalho e almoço com o ministro da Defesa, Nelson Jobim, o comandante americano encontrou-se com o diretor-geral da PF, Luiz Fernando Corrêa.
A PF já tem um adido de inteligência trabalhando na base de Key West, na Flórida. O Planalto está para decidir se o adido junto à base de Lisboa será um delegado federal ou um oficial da Marinha.
A base no Rio, assim como as outras duas, não admite operações sob comando de estrangeiros. Os países que aceitam participar dos programas de cooperação de combate ao crime organizado enviam adidos que atuam sempre sob supervisão dos agentes do país soberano sobre a base. A ideia é que com a base da Flórida, que vigia de perto o tráfico no Caribe, e a de Lisboa, que exerce controle sobre o Atlântico Norte, a base brasileira sirva como posto avançado de monitoramento do Atlântico Sul.
Tragédia. Key West é uma base aérea e naval que atua em cooperação com os departamentos de Defesa e de Segurança Nacional, agências federais e forças aliadas. Desde 1989, possui força-tarefa de inteligência que conduz operações contra o narcotráfico no Caribe e na América do Sul. Foi de lá que partiu o primeiro avião de resgate no caso da tragédia do voo AF 447, da Air France, em junho passado, no litoral do Brasil, perto de Fernando de Noronha. Notificada do acidente, a base mobilizou o adido brasileiro, que providenciou o início do socorro.
O grupo de agentes da força-tarefa de Key West tem como objetivo combater o cultivo, a produção e o transporte de narcóticos. Os governos britânico, francês e holandês contribuem com o envio de navios, aeronaves e oficiais. O grupo reúne ainda representantes de Argentina, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e outros países latino-americanos.
A presença dos Estados Unidos na região começou em 1823, com o objetivo de combater a pirataria local. Foi usada inicialmente como patrulha de operações submarinas e como estação de treinamento aéreo, utilizada por mais de 500 aviadores na época da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em 1940, ganhou a designação de base aérea e naval.
Em Lisboa, a base naval fica à margem do Rio Tejo, no Perímetro Militar do Alfeite. Foi criada em dezembro de 1958.
Fraser também veio ao Brasil para organizar a viagem do secretário de Defesa dos EUA, prevista para meados de abril. A visita é retribuição da viagem de Jobim aos EUA, em fevereiro, em Nova York. Em pauta, a cooperação estratégica militar entre os dois países, a compra de caças pelo Brasil e o interesse dos EUA em adquirir aviões de treinamento – a Embraer produz o Supertucano. A americana Boeing produz o F-18, Super Hornet, que está entre os três classificados na concorrência da FAB.
FONTEEstadao.com

domingo, 14 de março de 2010

49) "Trilogia Blog de Defesa".

Os assuntos relacionados à defesa não são de grande domínio por parte de civis. Talvez, se conte nos dedos o número de especialistas civis capacitados a lidar com tais assuntos. A situação, no entanto, parece estar mudando. Uma iniciativa neste sentido é o da "Trilogia Blog de Defesa". Os blogs Poder Naval, Forças Terrestres e Poder Aéreo procuram levar a todos os interessados informação a respeito das forças de mar, terra e ar respectivamente. Pareceram-me muito bem feitos. No entanto, não posso declarar coisa alguma em relação às opiniões lá expressas, pois ainda não as li.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
14 1923 mar 2010.

sexta-feira, 5 de março de 2010

38) Estratégia Nacional de Defesa.

Reservo meus comentários para um outro momento. Eis aqui a Estratégia Nacional de Defesa, assinada pelo Ministro de Estado da Defesa e pelo Ministro Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, respectivamente, Nelson Jobim e Roberto Mangabeira Unger. Este último, como é sabido, não ocupa mais pasta alguma no atual Governo Federal.

Vinícius Portella

Santa Maria,
05 2000 mar 2010