sexta-feira, 22 de outubro de 2010

227) Dom Ináfio e seu séquito: aonde levarão o país?

Interrupcao eleitoral (14): nao temos mais presidente...

...e sim um chefe de facção, e irresponsável, além de tudo.
Por enquanto, limito-me a transcrever.
Paulo Roberto de Almeida 

O mestre deu a partida
Dora Kramer
O Estado de S.Paulo, 21/10/2010

Em entrevista ao jornal espanhol El País no início deste ano, o presidente Luiz Inácio da Silva manifestou convicção na vitória. "Dificilmente perco essa eleição", disse, a despeito de o adversário à época apresentar vantagem nas pesquisas.

Lula sabia do que estava falando: da disposição de usar e abusar de todos os métodos - quase infinitos - à disposição de um presidente da República para cavar o êxito que o levaria a bater recordes históricos de transferência de votos e a lograr espaço de honra no panteão dos presidentes eleitoralmente mais bem-sucedidos do Brasil.

Para isso decretou que sua prioridade absoluta no último ano de mandato seria eleger Dilma Rousseff. Paralisou o governo, mobilizou toda a administração na perseguição dessa meta, rasgou a Constituição, violou todas as regras da boa conduta, atacou violentamente a todos que enxergou como adversários.

Tão violentamente que governadores aliados ao governo e eleitos no primeiro turno criticaram direta e abertamente o presidente, atribuindo à sua conduta agressiva a perda dos votos suficientes para eleger Dilma no dia 3 de outubro passado.

Não é de estranhar, portanto, a atitude dos manifestantes petistas que ontem agrediram o candidato José Serra durante um ato de campanha na zona oeste do Rio de Janeiro.

Em 2002 o presidente recém-eleito Luiz Inácio da Silva agradeceu ao presidente que deixava o posto, Fernando Henrique Cardoso, a correção da atitude neutra à qual atribuiu, junto com a eficiência da Justiça Eleitoral, a sua eleição.

Oito anos depois, o presidente Lula faz o oposto do que considerava o melhor para o Brasil. Desqualifica a Justiça, afronta a legislação e usa de maneira escabrosa a máquina pública; sem freios nem disfarces.

Não há outra conclusão possível: Lula só leva em conta o que é melhor para si, já que passados esses anos certamente fez a conta de que a "correção" de FH fez o antecessor não eleger o sucessor.

Como não quer correr o risco, Lula apropria-se indevidamente do patrimônio público, comete todas as infrações à sua disposição, leva o governo para a ilegalidade e ainda se vangloria como quem dissesse que vergonha é roubar e não poder carregar.

O pior para ele é que com tudo isso ainda pode perder. O melhor para o País já foi feito quando o eleitorado criou esse espaço de confrontação final. Do qual o presidente da República abusa sem nenhum escrúpulo, aparentemente com a concordância do Ministério Público.

A tropa que entrou em choque com a campanha tucana no Rio fez o que o mestre ensinou: vale tudo e mais um pouco para tentar ganhar a eleição.

Mal contada. O inquérito da Polícia Federal sobre a quebra do sigilo fiscal de várias pessoas ligadas ao tucano José Serra ainda não esclareceu de todo o caso, mas já permite uma constatação: é falsa a versão de que aquelas violações resultaram de um esquema maior de compra e venda de sigilo dentro da Receita, conclusão que o governo acha menos grave que a motivação eleitoral.

Pois bem: pelo que diz Amaury Ribeiro (o jornalista que contratou a quebra de sigilo), a razão foi política. Segundo ele, em 2009 foi a São Paulo a custa do jornal Estado de Minas, onde trabalhava à época, para recolher dados para "proteger" o então governador de Minas, Aécio Neves.

Meses depois, alguém do PT roubou dele as informações e montou um dossiê para tentar prejudicar os tucanos.

Por enquanto a história não fecha direito e, pelo já visto, pode reservar emocionantes revelações.

Por exemplo: por que o jornal Estado de Minas mandou um repórter a São Paulo coletar dados com objetivo de "proteger" o então governador? E proteger do quê, de uma ofensiva de José Serra? Quem pagou pela quebra do sigilo: o jornal, o governo do Estado ou Amaury? Se Amaury foi roubado, o que fazia na reunião com o setor de "inteligência" da pré-campanha do PT onde se negociavam as informações que viriam a fazer parte do dossiê entregue em junho de 2010 ao jornal Folha de S. Paulo? 

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Pronto! A farsa do SBT e do PT está desfeita, agora pelo JN também! Lula mentiu! E o UOL, hein?
Reinaldo Azevedo, 21/10/2010 às 21:40

É de estarrecer, não? (video, ver neste link)

Provado e comprovado: o episódio da suposta bola de papel que atingiu Serra no Rio nada tem a ver com o outro, quando um objeto acertou a sua cabeça e o fez interromper a caminhada. São momentos distintos, conforme prova a confrontação da imagem do cinegrafista do SBT com a filmagem feita em celular por um repórter da Folha. O Jornal Nacional acaba de levar a confrontação ao ar.

É asqueroso que um presidente da República, como já escrevi aqui, não censure a violência da sua turma, como se a tropa de choque fascistóide que tentou intimidar os tucanos fosse uma coisa aceitável. É assombroso que um chefe de governo recorra a uma mentira clamorosa, passe a mão na cabeça de seus tontons-maCUTs e ainda condene a vítima.

O PSDB tem de pedir direito de resposta no SBT e na Record, que veicularam a mentira da bola de papel. Qual mentira? Pode ter havido uma bola de papel, o que só agrava a questão, mas não foi ela a causar mal-estar na vítima. Tem de pedir direito de resposta na campanha de Dilma Rousseff e, quero crer, tem de recorrer à Justiça, também à criminal, contra o sr. Luiz Inácio Lula da Silva, que não é inimputável. Serra teve a sua honra agredida pelo sr. presidente da República.

E o UOL?
Até havia pouco, o UOL sustentava a dúvida sobre a bola de papel, como se as imagens que provam a farsa petista não fossem de um jornalista da Folha de S. Paulo — que pertence ao mesmo grupo.

Nunca antes na história destepaiz houve um presidente como este, que desprezasse tanto o decoro necessário para o exercício do cargo. Nunca antes na história destepaiz houve setores da imprensa como os que vemos hoje, sempre prontos a transformar as vítimas em culpadas.

Lula rebaixou tudo: o decoro, as instituições, a legalidade, a civilidade política e, com as exceções de sempre, o jornalismo.

PS - Ah,sim: este blog já havia antecipado a farsa petista, certo?
Reinaldo Azevedo

226) Direita ou esquerda? Por Paulo Ghiraldelli.


Apenas por publicar. Quis fazer d'O Arqueiro Prudente algo de natureza plural. Não concordo com Ghiraldelli em muitos pontos, e não é o caso que concorde com ele em todos os pontos apresentados neste texto. Mas concordo, certamente, num ponto: o brasileiro está ávido por um ambiente de prosperidade possível, somente, numa economia dinâmica de livre-mercado. Todavia, dar as condições políticas para isso está sendo nosso grande problema...

Vinícius Portella

Porto Alegre,
22 0420 out 2010.

Direita ou esquerda?

Tuesday, January 26, 2010
By Paulo Ghiraldelli
Direita ou esquerda? Há quem diga que nem uma nem outra posição é válida agora. Todavia, essa posição para além da divisão clássica não existe. As pessoas se comportam de determinado modo na política e, enfim, isso é facilmente identificável como direita e esquerda, bem mais hoje do que há dez anos.
A direita e a esquerda democráticas respondem a ideais postos na Revolução Francesa, os de igualdade, liberdade e fraternidade. Ambos concordam em tese com a fraternidade, mas divergem sobre igualdade e liberdade. Na tradição européia, que ainda é a nossa, apesar de nossa crescente tendência ao bipartidarismo que lembra os Estados Unidos, a direita diz que a igualdade que a esquerda prega precisa demais da ação do Estado e, por isso, vai terminar por sufocar as liberdades individuais. A esquerda retruca que a liberdade que a direita quer é retórica, pois ninguém consegue ser realmente livre em uma sociedade em que a distância social é excessiva.
Até pouco tempo, os Estados Unidos tinham uma tradição diferente. A esquerda tendia a falar menos de igualdade e mais de liberdade, pois entendia que a ação do Estado sempre seria pouco aconselhável, algo no sentido de forçar o cidadão a situações pouco confortáveis. Com a crise econômica que Obama agora busca administrar, também nos Estados Unidos a esquerda começa a falar mais em igualdade, ainda que lá, diferente daqui, a intervenção do Estado na vida individual seja bem menos agradável aos olhos do americano médio, seja ele radical ou conservador.
No Brasil atual, nossa direita política não é fascista. Por sua vez, nossa esquerda atual, mesmo que possa aparecer aqui e ali ligada ao comunismo, não faz nenhuma defesa da “ditadura do proletariado”. O partido comunista e outras agremiações do tipo, fora ou dentro do PT, atuam como partidos social-democratas, às vezes até de modo mais tímido do que foi a social democracia no passado. E o PT atua aquém da social democracia até, vivendo mesmo de um esquerdismo do tipo do “Segundo Vargas”, generosamente assistencialista. O termo “direita”, que havia se tornado menos pejorativo ao final dos anos 90, agora voltou a não ser mais querido. Todos se dizem ou democratas ou de esquerda. Isso é retórico, mas mostra que ao menos no campo semântico, a Queda do Muro e o fim da URSS foram coisas distantes, vistas por nós pela televisão, sem grandes marcas históricas em nossa mentalidade política média.
Todavia, quando o debate tende a ficar ideologizado, ao menos nas camadas mais escolarizadas que a imprensa tende a ouvir demais, acusações esteriotipadas reaparecem. Reacendem-se os monopólios. A esquerda quer ter o monopólio dos pobres, ou seja, o direito à defesa da igualdade. Faz isso, não raro, se esquecendo da liberdade. A direita quer ter o monopólio da causa da liberdade quase que naturalmente, mas, infelizmente, a coloca de lado se, por um acaso, a defesa da igualdade comece a radicalizar. Nesse caso, a direita recrudesce e insiste que a esquerda vai apelar para o totalitarismo mais cedo o mais tarde. A esquerda reage e diz que o descompromisso da direita com os pobres a coloca desdenhosa com a justiça social e, enfim, também com os avanços da legislação que protege direito e liberdade de  minorias. Assim, na conta da esquerda, a defesa da liberdade feita pela direita não seria senão o da liberdade de imprensa – a “imprensa burguesa” ou, como agora se diz, a “o falatório midiático superficial”.
A esquerda no Brasil é Lula. A direita é a Veja. Ideologicamente, o resto é penduricalho. A direita no Brasil vem a galope mais pela imprensa do que propriamente pelos os grupos políticos que estariam na oposição ao Lula, e a reação de esquerda se faz também nesse plano. Em outras palavras, grupos como o reunido pela Veja criam um pandemônio ideológico muito mais acirrado do que os políticos mais proeminentes do PSDB e DEM, de um lado, e do PT e aliados, de outro, poderiam querer. A classe média escolarizada tende a acompanhar muito mais a mídia do que propriamente os políticos. Estes são mais pragmáticos. Sabem que uma aposta no voto ideológico nunca é coisa boa. Mas, às vezes, se empolgam com a mídia e terminam por, também no parlamento, deixar de lado a atitude corretamente pragmática e enveredar por discursos ideológicos.
Assim, às vezes assistimos debates que já deveriam ter se encerrado há muito. Um senador do PSDB vai à tribuna para falar que Cuba é uma ditadura. Uma novidade fantástica! Depois volta para um discurso longo e inútil sobre o quanto Chávez quer escravizar o povo venezuelano, e aproveita para concluir com a bobagem de que isso seria o mesmo que Lula gostaria de realizar no Brasil. Essas análises descabeladas são frutos de ideologização em excesso. Discursos assim são anacrônicos e acabam soando mais ridículos que os do próprio Chávez, e olha lá que este é habilidoso na arte de falar asneiras.
Chávez vai mal das pernas agora, mas se fosse bem, talvez pudéssemos assistir algum tolo da esquerda, do PT ou coisa parecida, morder a isca do PSDB e ir discursar em favor de regimes fechados ou, então, ficar enumerando conquistas sociais de duvidosa validade de Cuba ou de um futuro que nunca chega, na Bolívia.
Esses discursos ideológicos são tolos. Os políticos mais inteligentes são aqueles que percebem que a ideologização discursiva é ruim. O brasileiro precisa de mais igualdade. Mas nunca irá deixar isso ocorrer sem liberdade. Nossa índole não é a de quem topa a adoção de regimes fechados. Tanto isso é verdade que nosso regime militar nunca conseguiu eliminar eleições ou governar sem algum tipo de parlamento. A política nunca desapareceu de vez entre 1964 e 1985. Felizmente, agora, ela está a todo vapor. Ideologizá-la em demasia, a ponto de se deixar de lado necessidades prementes de liberdade e igualdade articuladas a feitos reais, concretos, que melhorem nossas vidas, é uma grande tolice dos políticos. É bom que eles leiam menos a Veja e não dêem ouvidos para marchinhas de rua como as do pré-64, e isso nos dois sentidos, pois esse recado vale tanto para a esquerda quanto para a direita.
O brasileiro quer, afinal, duas coisas. Quer a estabilidade da moeda de FHC. Quer o aquecimento do mercado e a capacidade de compra ampliada de Lula. Isso é igualdade e liberdade do brasileiro. E ele está certo, pois é a participação no mercado e o consumo que trazem a fraternidade. Foi assim que o capitalismo civilizou relações, ainda que, em determinados momentos, tenha colocado todo o mundo em guerra.

225) A França dança o tango da morte: quero ver pagar no futuro...

Tanta agitação por apenas dois anos? A matemática dessa gente não bate: enquanto a base que paga pela previdência mantém-se constante ou diminui, a população beneficiada só faz aumentar. Mas quem quer saber se haverá no futuro como pagar a aposentadoria dos idosos?

Vinícius Portella

Porto Alegre,
22 0408 out 2010.

Struck off
Oct 13th 2010, 12:01 by The Economist online | PARIS
GIANT inflatable helium balloons. Vibrant flags and T-shirts in crimson, orange and fluorescent yellow. The sounds of chanting, laughter and the marching bass drum. There was a festive air about the demonstrations and strikes in France against pension reform yesterday, when up to 3.5m people took to the streets, a record turnout. Railwaymen, bus drivers, teachers, postmen, printers, public-sector workers and dockers were joined by schoolchildren in over 300 lycées (who have their own unions), and oil workers in 11 of the country’s 12 refineries, disrupting services across the country. But behind the merriment and street theatre lies the toughest test this year of the unions’ ability to force the government to back down.
A law that will raise the legal minimum retirement age from 60 to 62 years is going through parliament, and the upper house is due to conclude its voting on it next week. The stakes on both sides are high. President Nicolas Sarkozy needs to show that he can deliver reform despite his low popularity, partly to maintain France’s credibility in the bond markets. For the unions and the opposition on the left, whose leaders joined the rallies, the protests are their last chance to flex their muscles over the reform. This is why, for the first time this year, some sectors, including the SNCF rail operator and oil workers, have continued with rolling strikes. A further day of protests is planned for October 16th.
Certainly, the numbers impress. Even the government count, always below the unions’ more extravagant claims, recorded 1.2m protesters. Back in 1995, when weeks of crippling strikes forced Alain Juppé’s government to abandon an earlier attempt at pension reform, official figures put the biggest turnout at only 1m. When another prime minister, Dominique de Villepin, ceded to the street over labour-market reform in 2006, the authorities counted at most 1.1m. Buoyant union leaders say they will not give up, even after the law is voted. There is muttering about petrol shortages. With school pupils taking part, egged on by the Socialist Party, things could yet spin out of control.
There are, however, two differences with this round of protests. First, although the numbers on the streets are high, it is the strikes, not the demos, that have the power to disrupt. Thanks in part to a law designed to ensure minimum service in schools and on public transport during strikes, and to the fact that workers are no longer paid when they walk out, strikes do not paralyse the country in quite the way they once did. (French commuters have also learned to take one of their numerous days off during strikes, reducing the pressure on trains.) 
At the same time, public opinion has shifted. This is not immediately clear from polls. Some 70% of respondents to one said that they backed the strikes, more than the 54%-62% in favour in late 1995. Yet this may be precisely because strikes are less intolerable now for those who do try to get to work. And for all the drama on the street, in the same poll 53% said that the raising of the retirement age was “acceptable” and 70% that it was “responsible vis-à-vis future generations”. A silent majority seems to know that demography and economics make pension reform inevitable.

224) Alexandre Garcia, um jornalista arguto e vivaz.

Alexandre Garcia, parece-me um sujeito arguto e vivaz. Acabo de encontrar este comentário do referido jornalista

http://www.youtube.com/watch?v=g1sfgEv--hA&feature=related

20 maio de 2010.

Mais um da série "empoeirados". Apenas publico-o...

Vinícius Portella

Porto Alegre,
22 0353 out 2010.



Testemunha da história
Há quase dois meses, com efeito multiplicador e instantâneo, circula pela internet uma mensagem "informando" que Alexandre Garcia fora demitido da Rede Globo, depois de fazer pesadas críticas ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O governo, contrariado, teria pressionado a empresa a colocar na bandeja a cabeça de um dos seus melhores jornalistas. A notícia é falsa e Alexandre Garcianão está começando a leitura dos jornais pelo caderno de classificados, procurando emprego.
Foi na TV Globo de Brasília que ele concedeu esta entrevista, rememorando a sua trajetória profissional. Tal qual um correspondente de guerra, o relato do repórter é esclarecedor de muitos fatos, até então desconhecidos. Ele faz revelações inéditas, como o dia em que o presidente João Figueiredo ficou nu em sua frente, sem qualquer protocolo, enquanto viajavam a bordo de um Búfalo da FAB.
Um boato produzido por alguém na internet, gerando uma desinformação, acabou proporcionando revelações esclarecedoras sobre uma época no país que precisa, mais do que nunca, ser pesquisada, para a melhor avaliação histórica.
Marcone Formiga - Corre na internet o boato que você foi demitido da TV Globo. Você sabe disso?
Alexandre Garcia - A internet aceita tudo. Pode-se botar qualquer coisa na internet. Não faz nenhuma diferença... O que aconteceu foi o seguinte: aquele comentário meu no Bom Dia Brasil estava circulando na internet. Circulando sobre o epíteto: “Olha só a indignação do Alexandre Garcia”. Lá pelas tantas, deve ter caído na mão de um internauta, provavelmente um garoto, que pensou: “Ah, então foi por isso que ele foi demitido”, e espalhou. Por quê? Porque, para o garoto, o meu nome é Franklin Martins. Deve ter sido isso. Se bem que o Franklin também não foi demitido. Simplesmente não foi renovado o contrato dele. As pessoas me cumprimentam na rua dizendo: “Sou seu fã, Paulo Henrique Amorim”, “como vai o senhor, Hermano Henning?”, “vejo o seu programa todos os dias, seu Joelmir Beting”. Então, o menino viu e pensou que fosse por isso que tiraram o Franklin Martins.
Marcone Formiga - Mesmo você aparecendo na telinha, ou seja, visualmente conhecido?
Alexandre Garcia - Eu costumo dizer que se, por exemplo, meio dia um sujeito recebe uma mensagem pela internet dizendo que o sol não vai nascer, ele ficará preocupadíssimo. Ele sabe que o sol já nasceu, mas leu na internet que o sol não vai nascer. Existe um texto na internet, bastante piegas, que dizem que é meu. Quando me perguntam se o texto é meu eu respondo que não, porque jamais escreveria uma palavra do tamanho de “questionamento”, como está no texto. Eu já li textos na internet do Fernando Pessoa dizendo: “espero que vocês me mandem e-mails...” (risos) Vi até texto mal escrito do Fernando Veríssimo, prosa horrorosa do Mário Quintana. São pessoas na internet, nesses casos, que sabem que se mandarem um texto delas aspirando que seja lido, não vai ser... Então, põe o nome de alguém conhecido para que alguém leia, ficando com o ego inflado, já que, enfim, está sendo lido, embora sob o nome de Franklin Martins, Mario Prata, Drummond... A internet aceita tudo. Agora, o que eu acho terrível é o sujeito receber isso, me ver no “Bom Dia Brasil”, no “Globo Repórter”, no “Espaço Aberto”, no “Jornal Nacional”, no “DF-TV”, e passar adiante para mais vinte pessoas. Isso é uma maluquice!
Marcone Formiga - A sua origem foi a mídia impressa. Qual é a diferença?
Alexandre Garcia - No fundo, a minha origem foi com o microfone. Meu pai era de rádio e, quando eu tinha sete anos, me chamava para fazer papéis infantis em novela. Isso lá na Rádio Cachoeira. Naquele tempo, não havia gravador. O gravador era de arame, que ninguém usava porque enroscava todo. Era ao vivo a gravação da novela. Um dia me mandaram uma foto minha dentro de uma estrelinha, escrito “os astros da radionovela”. Então, minha origem é do rádio, o improviso vem do rádio. Fui locutor, noticialista e repórter. Depois, fui para Porto Alegre, trabalhar na rádio Difusora, para pagar pensão e estudo. Trabalhava todo dia de 10 da noite a uma da manhã. Com 16 anos, fazia transmissões de um clube noturno, em um programa ao vivo, onde eu mostrava músicas do tempo de Luiz Bonfá. O rádio me deu muita cancha no improviso, na linguagem rápida, na concisão. Depois eu fui trabalhar no Banco do Brasil, mas o sangue me chamou de volta. Então, fui fazer faculdade na PUC de Porto Alegre e consegui um estágio no “Jornal do Brasil” que, pouco tempo depois, me efetivou. Subi rápido no “Jornal do Brasil” porque já tinha alguma experiência com rádio.
Marcone Formiga - Foi nessa época que foi enviado especial a Argentina.
Alexandre Garcia - Pois é. Eu comecei a cobrir a Argentina quando morreu o (presidente Juan Domingos) Perón. Era um período turbulento - havia a guerrilha do ERP e a guerrilha dos Montoneros. Eu cheguei a ser seqüestrado pela dos Montoneros (guerrilha nacionalista de esquerda, ativa durante os anos 70, na Argentina). O sujeito me botou no chão, colocou a metralhadora na minha nuca, disse que ia apertar o gatilho porque eu era um espião brasileiro. Ele viu a minha carteira e entre as credenciais achou a da Presidência da República. Ele viu o brasão da República e concluiu que eu fosse funcionário. Depois, ele disse que botou uma bomba na maçaneta e foi embora nos deixando presos. Aí chegou a polícia com o esquadrão anti-bombas, que acabou descobrindo que era uma falsa bomba. Tempos depois, descobriram um cadáver de uma pessoa que estaria tentando atravessar a fronteira com armas em Foz do Iguaçu portando meus documentos. Quando fui requisitar outro passaporte eu registrei o episódio, para que a pessoa, que usasse meu passaporte para entrar no país, fosse detida. Acontece que quem foi preso fui eu no aeroporto do Galeão. Fiquei preso durante horas. Liguei para o “Jornal do Brasil”, que ligou para a polícia. Fui solto com a condição de que eu voltasse no dia seguinte para provar que eu era eu mesmo.
Marcone Formiga - Você entrevistou a Isabelita (María Estela Martinez, viúva de Juan Domingos Perón, foi a primeira e, até hoje, única mulher a assumir a presidência da Argentina)?
Alexandre Garcia - Não. A Isabelita foi uma confusão comigo. Ela estava doente, com depressão, ficou internada no hospital da Força Aérea nas montanhas de Córdoba, que era uma espécie de retiro para tratamento mental. O “Jornal do Brasil” me pediu para que eu fosse tentar uma entrevista com ela. Chegando a Córdoba peguei um táxi e pedi para que o taxista me levasse até o hospital, em Ascochinga. Ele me respondeu que todas as estradas estavam fechadas por barreiras militares, mas como ele era da região, propôs me levar por estradinhas vicinais. Eu achei maravilhoso e fui com a maior irresponsabilidade. Quando eu cheguei à guarita o oficial imaginou que eu tivesse passado por todas as barreiras policiais e já veio me pagando continência e mandando entrar. Eu já estava pensando que havia sido a condessa Pereira Carneiro (diretora-presidente do Jornal do Brasil, na época) que ligou para ela dizendo que eu ia entrevistá-la. Entrei em outra sala. Daí veio um coronel todo lustroso, que me fez continência: “Señor, la señora lo espera!”. Eu pensei: “Puxa vida! Que recepção! A condessa fez o serviço completo”, mas eu comecei a sentir algo estranho. Ele começava a piscar o olho para mim, demonstrando certa cumplicidade. Então, eu perguntei: “Coronel, a presidenta está mesmo me esperando?”. Ele disse: “Si, señor. Tu eres el nobio. Nobio de la señora!”. Percebi a situação e falei que era um periodista de um jornal do Brasil. Quando eu terminei de dizer isso o coronel começou a ficar vermelho de raiva e começou gritar para que fosse embora. Depois, quando eu voltei para Buenos Aires e contei o episódio a um jornalista argentino, fiquei sabendo que o namorado dela atual era um oficial da Força Aérea da minha altura, magro, que tinha deixado a barba crescer e não usava mais farda.
Marcone Formiga - De jornalista credenciado no Palácio do Planalto você passou a viver uma experiência diferente - foi para o outro lado, como porta-voz do presidente João Figueiredo. Como foi, valeu a pena?
Alexandre Garcia - Foi válida e me ensinou muito. Fiquei 18 meses no cargo, de 1979 a 1980. Foi uma época politicamente muito boa. Houve a volta dos cassados e banidos, com a censura já abolida. Foi um período de transição em que, muitas vezes, eu atuei como mediador. O Freitas Nobre, líder do MDB, e o Alceu Colares, vice-líder, se encontravam com o presidente Figueiredo por meu intermédio; o Brizola mandava recado para o Figueiredo por meu intermédio. Um dos recados era: “Segure os militares no seu lado que eu seguro a oposição no meu lado e vamos os dois botar mais um tijolinho nessa democracia”. Aí o Figueiredo me dizia: “E você acredita nele?”. Eu dizia então que só estava retransmitindo o recado. Raul Ryff, que era porta-voz do Jango, certa vez em uma entrevista ao “Pasquim”, se recusou a criticar o Figueiredo, dizendo: “Olha, eu não conheço o general. Conheci o pai dele, que foi um democrata que lutou pela Revolução Constitucionalista de São Paulo (o general Euclides Figueiredo). Como não o conheço me recuso a criticá-lo”. Eu liguei ao Ryff para cumprimentá-lo e agradecer em nome do presidente. O José Escarlate estava na minha sala e noticiou isso no “O Globo” no dia seguinte. O Farhat (Said Farhat, na época ministro da Secretaria de Comunicação Social) ficou uma fera comigo, dizendo que eu não tinha nada o que falar em nome do presidente. Então vieram avisar que o presidente estava chegando ao Palácio do Planalto. Quando o presidente chegou me posicionei em fila - hierarquicamente, começando pelo general Golbery do Couto e Silva (chefe do Gabinete Civil), o general Danilo Venturini, e assim por diante - para cumprimentá-lo, lá no fim da fila. Naquele dia, quando abriu a porta do elevador, o Figueiredo me procurou e viu-me no final da fila. Foi direto na minha direção, deixando todo mundo de lado, para falar que tinha lido no “O Globo”, que eu tinha cumprimentado o Ryff em seu nome e completou: “Muito obrigado! É assim que faremos democracia”. Aí, eu flutuei, claro! E o Farhat ficou roxo de raiva.
Marcone Formiga - Foi um aviso que a função de porta-voz não seria nada fácil?
Alexandre Garcia - Eu aprendi com o Rubão Ludwig (Rubens Ludwig, ministro da Educação no governo João Figueiredo, e que fora porta-voz antes) que para ser porta-voz tem que se saber a música. Sabendo-se a música coloca-se a melhor letra para a ocasião. Eu sabia a música. Era “vamos fazer desse país uma democracia”. Essa foi a primeira vez que o Farhat ficou com raiva de mim...
Marcone Formiga - A primeira. Porque ocorreram outras. Qual foi a próxima?
Alexandre Garcia - O “Correio do Povo”, de Porto Alegre, me pediu uma entrevista para a edição de domingo. Aí eu fui perguntar ao Golbery se poderia dar essa entrevista, e este ficou de acordo. Mas eu sabia que teria que dizer alguma coisa importante para ser manchete. Não se limitar a falar sobre o dia-a-dia, sobre o óbvio, teria que falar algo interessante. Fazia dois meses que o governo tinha começado, e então Golbery me disse: “Pois diga que o sucessor do Figueiredo será civil”. Foi manchete do “Correio do Povo” no domingo, e na segunda-feira em todos os outros. O Farhat me chamou na sala dele dizendo que o presidente estava furioso e perguntando quem havia me autorizado a falar aquilo, já que era uma frase que teria que ser dita, com toda pompa e circunstância, pelo presidente e não por mim. Desconfiei que ele estivesse blefando e blefei também. Falei que havia sido o próprio presidente que mandou dizer. Depois disso ele mandou eu me retirar da sala. Daí por diante, eu passei a ser porta-voz direto sem passar pelo ministro, que era o meu superior imediato.
Marcone Formiga - Foi uma época muito rica de fatos...
Alexandre Garcia - Foi um período de muito aprendizado, além da satisfação de ter participado do processo de abertura e saber como funcionam as engrenagens do poder, as etapas de decisão que estão vigentes até hoje. Muita coisa hoje, como comentarista, eu deduzo, porque se eu sei um décimo posso deduzir os outros nove. Eu sei o que o presidente vai dizer sobre determinado assunto, porque todos dizem o mesmo. Não é uma adivinhação. É uma aposta com 98% de certeza, porque, lá dentro, o governo funciona igualzinho, seja de direita, de esquerda ou de centro. Isso eu aprendi lá dentro e trouxe para fora. Acho que um ano e meio foi suficiente para saber como funciona o outro lado. Conheci, digamos, o lado oposto do jornalismo. Passei a compreender melhor a insistência de quem queria furos, informações privilegiadas. Eu flagrei várias vezes, enquanto era porta-voz, jornalistas em lugares onde não deviam estar. Mas eu entendia...
Marcone Formiga - Por exemplo...
Alexandre Garcia - O Chico Dias (repórter na época de O Estado de S. Paulo), certa vez, pediu-me para entrar na Base Aérea de Belém, carregou minha mala para dizer que era o meu ajudante, e entrou comigo. Foi quando eu estava na beira da piscina, depois do almoço, e o chefe do SNI, general Octávio Medeiros, e o chefe do Gabinete Militar, general Danilo Venturini, conversavam sentados na borda da piscina. Então eu vi uma cabecinha debaixo d’água fingindo estar tomando sol. Era o Chico ouvindo a conversa dos dois! Fui falar com ele depois dizendo que aí já era demais, e ele, como já tinha ouvido o que queria, falou: “Pode deixar que eu vou embora”...
Marcone Formiga - Conta-se que o Said Farhat tinha ciúme de você e por isso provocou a sua demissão. Como foi esse episódio?
Alexandre Garcia - Eu havia sido entrevistado para a “Playboy” e aí o Flavinho Cavalcante, na época da Bloch, disse que a “Ele & Ela” também queria uma entrevista. Só que maior, com fotos. Fui perguntar para o meu guru, o ministro Golbery, que respondeu: “Pode, sim. Vamos, em breve, tirar o Farhat. Vamos extinguir a Secretaria de Comunicação Social e queremos que você fique como secretário de Imprensa. Nada como dar uma entrevista para uma revista masculina para projetar mais o seu nome, para virar depois secretário de Imprensa”. Dei a entrevista, revisei, praticamente copidesquei. Então aquilo que está lá é meu mesmo. O Flavinho me trouxe o primeiro exemplar que entreguei para o Figueiredo ler. O Figueiredo leu a bordo de um Búfalo em uma viagem a Pindamonhangaba. Até aconteceu uma coisa engraçada...
Marcone Formiga - O que foi? Ah, conta...
Alexandre Garcia - Estourou um cano do sistema hidráulico do avião sujando as calças do presidente... Quando ele foi trocar as calças olhou para mim e disse: “É perigoso tirar as calças na sua frente”! (risos) Foi a única observação que ele me fez a respeito da entrevista.
Marcone Formiga - Mas, voltando ao Farhat, seu algoz...
Alexandre Garcia - O Farhat tinha respondido uma carta da mulher de um goleiro do Atlético, que usou palavras de baixo calão para se referir ao presidente. Respondeu devolvendo as palavras de baixo calão. Aí a revista “Veja” pegou essa carta do Farhat e uma foto minha na entrevista, em que eu estava na cama, de bermuda. O fotógrafo me cobriu com o lençol até o tórax e tirou as fotos. A “Veja” pegou essa foto e a carta e lançou na capa: “Vulgaridade palaciana: enquanto o ministro da Comunicação Social usa palavras de baixo calão em carta, o sub-secretário de Imprensa nacional se deixa fotografar sob os lençóis em uma revista masculina”. O Farhat pegou aquilo e deve ter pensado: “Para tirar do meu eu vou botar no dele”. Então me chamou - e fiquei sabendo anos depois que ele foi pegar o sinal verde com o Medeiros e não com o Figueiredo ou Golbery - e veio, com toda força, com uma carta na mão para que eu assinasse pedindo minha demissão. O Golbery não foi porque estava em casa doente, mas me ligou uma hora depois: “Volta que vamos demitir esse turquinho agora!”. Eu respondi: “Desculpe, ministro. Eu não vou voltar porque não quero criar crise no governo”. O Farhat saiu uns 20, 30 dias depois...
Marcone Formiga - Aí, entrou a mídia eletrônica. Essa coisa de ter visibilidade não é um pedágio alto, porque se perde a privacidade?
Alexandre Garcia - A visibilidade nacional veio após a Presidência da República. Antes, eu assinava matéria no JB, mas uma vez ou outra aparecia minha cara. Eu apareci junto ao Juan María Bordaberry (ex-ditador uruguaio), em uma entrevista, na primeira página de um JB de domingo, dias depois dele ter fechado o Congresso. Foi a minha glória como jornalista escrito. A manchete era: “Bordaberry, exclusivo ao JB: ‘Todo poder é do civil’”. O civil era ele. Então, comecei a mostrar a cara na "Manchete" a partir de 1983. Eu ficava muito satisfeito com a repercussão. As pessoas vinham me falar: “Olha, o Armando Nogueira lhe elogiou porque você faz gestos, seus olhos falam, você gesticula”. Isso era no tempo que todo mundo pegava no microfone e ficava congelado, declamando uma “decoreba”. Eu conversava, era uma coisa coloquial. Isso foi proposital.
Marcone Formiga - Por que você saiu da Rede Manchete?
Alexandre Garcia - Eu saí da Manchete, por ter criticado a transmissão de Carnaval, dizendo que tinha vergonha da cobertura. Disse isso em uma conversa com a Cora Rónai e ela me pediu para usar na coluna dela e eu autorizei. Isso saiu no “O Globo”. Aí o Adolfo Bloch me ligou: “Você não pode criticar assim”. O fato é que, à noite, alguém convenceu o Adolfo que eu podia fazer um discurso contra a Manchete naquele dia. Não me deixaram entrar no ar. Eu estava no estúdio quando o Luís Fernando Valls, chefe de redação, falou que eu não poderia entrar. Fui para casa e quando eu voltei no dia seguinte, o seu João, o velhinho que cuidava do portão da Manchete, falou que tinha ordens do senhor Adolfo para não me deixar entrar. Voltei para casa e tinha um almoço com o Inocêncio Mártires Coelho naquele dia, na época procurador-geral da República, que me disse que o que havia sido feito era um impedimento do empregador de acesso ao trabalho. Então ele me aconselhou a procurar um advogado trabalhista e eu ganhei em todas as instâncias. No tribunal eu tive uma satisfação muito grande, já que foi voto unânime ao meu favor. O relator disse que meu insurgimento contra o empregador foi em defesa da sociedade, porque todos haviam visto que era um baixo nível a transmissão da Manchete. Foi a minha compensação.
Marcone Formiga - Tem gente aí querendo pegar carona na sua fama, se candidatando com o seu nome a deputado...
Alexandre Garcia - Já é a segunda vez. O nome dele é maior que Alexandre Garcia. Esse é só um pedaço do nome dele. Mas não ta colando. Na primeira tentativa, eu tive que avisar para não votarem em mim, que eu não era candidato. Tem que avisar para as pessoas não se confundirem.
Marcone Formiga - E a síndrome do plim-plim, aquela que acomete pessoas que começam, na Globo, como repórteres, depois evoluem e começam a aparecer frequentemente na tela e se portar como estrelas. E quando, por algum motivo, são demitidas, se desestruturam emocionalmente. Você conhece casos assim?
Alexandre Garcia - Eu fui diretor de jornalismo da TV Globo Brasília durante cinco anos. Eu costumava dizer o seguinte aos repórteres: “Não comece a levitar depois que você der o primeiro autógrafo na Rodoviária. Você está dando autógrafo não é por sua causa. É simplesmente porque você aparece na televisão. O responsável não é você, é a telinha. Não caia nessa armadilha de começar a achar que é astro, que deixou de ser jornalista, escriba, para ser artista”. Lembrando Mário Henrique Simonsen, que dizia que “a tragédia do trapezista é quando ele pensa que pode voar”.

223) O Fariseu, por Desidério Murcho


Tenho aqui um desses textos já "empoeirados" à espera de sua publicação n'O Arqueiro Prudente. Em momento de debate, algo "bom para se pensar" pode ser retirado das palavras abaixo.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
22 0349 out 2010.

O fariseu

Desidério Murcho
A filosofia que é transmitida no nosso ensino não forma filósofos, mas fariseus. O Fariseu dá-se ares de filósofo porque adquiriu a capacidade para citar muitos nomes de muitos filósofos, e para enrolar palavras de aspecto filosófico em discursos retorcidos e turvos. Mas a propriedade proeminente do Fariseu é o olhar irónico que lança ao próprio projecto da filosofia. Vejamos o Fariseu em acção.
O professor competente que procura começar um seminário sobre filosofia da religião, por exemplo, vê-se imediatamente confrontado com o Fariseu. A filosofia da religião é uma área vasta da filosofia contemporânea e clássica. Aborda vários problemas, discute vários argumentos e há várias teorias. O estudo sério da filosofia da religião consiste em compreender claramente os diferentes problemas da filosofia da religião, formular claramente os argumentos e as teorias dos diferentes filósofos sobre esses problemas e — este é o fim último — ter uma posição própria sobre a matéria.
Mas para o Fariseu nada disto faz sentido. Um dos problemas fundamentais da filosofia da religião, e que mais facilmente se compreende e que é por isso escolhido em geral em cursos competentes de introdução à filosofia, é a existência de Deus: Será que Deus existe? Mas para o Fariseu este problema é uma tolice. Discutir a existência de Deus é um disparate porque em última análise a fé é algo do foro pessoal e as nossas convicções mais queridas não são abaladas pelos argumentos dos filósofos.
O Fariseu não está apoiado em quaisquer estudos empíricos, que lhe mostrem que é impossível as pessoas serem razoáveis e exigirem às suas convicções mais queridas que passem pelo crivo da razão. O que o Fariseu quer é não colocar em causa as suas convicções mais queridas; e é para ele um incómodo que haja pessoas no mundo que procurem fazer passar pelo crivo do estudo rigoroso as suas próprias convicções mais queridas. O que incomoda o Fariseu, em última análise, é haver afinal filósofos. Pois essa é a tarefa dos filósofos e dos estudantes de filosofia: o exame minucioso e rigoroso das suas próprias convicções. Se virmos bem, foi o Fariseu que condenou Sócrates à morte, porque Sócrates era filósofo e porque ser filósofo é examinar as nossas convicções mais queridas: "Não vale a pena viver uma vida por examinar", declarou Sócrates na Apologia.
Mas isto é impensável para o Fariseu. E ele tem boas razões para isso. Afinal, a filosofia farisaica é muito mais fácil. Consiste em falar de longe das palavras dos filósofos, mas nunca entrar na discussão das nossas convicções mais queridas. O Fariseu derrota Sócrates completamente. Sócrates aproxima-se do Fariseu e pergunta-lhe o que é a justiça, ou o conhecimento, ou a fé. E o Fariseu responde-lhe, com toda a razão: "Vai-te, Sócrates! Não tens nada a ver com isso! Que penso eu dessas coisas? Isso é do meu foro íntimo! Mas se quiseres, posso dizer-te com mil citações o que pensaram os pretensos grandes pensadores sobre essas tolices." Em suma, a filosofia do Fariseu é parasita; não é um pensamento autêntico, que se joga e arrisca; é um pensamento calculista, frio, distanciado, que considera indelicado perguntar de frente a um estudante: "Pensas que Platão tem razão? Pensas que Deus existe? Pensas que o conhecimento é crença justificada verdadeira? Pensas que o aborto é permissível?"
Para o Fariseu todas estas perguntas são impensáveis. São perigosas. Deviam mesmo ser proibidas. E ele assim faz. Quando o Fariseu chega a professor, é o Professor Fariseu, e impede que os seus estudantes possam dizer o que pensam e que possam defender com argumentos claros o que pensam. O Professor Fariseu começa por não ensinar os estudantes a pensar e a argumentar; até porque ele também não sabe fazer tal coisa. As subtilezas dos argumentos e das teorias dos filósofos escapam-lhe. Não pode ensinar isso aos seus estudantes. Nem quer. Tudo o que quer transmitir aos estudantes é meia dúzia de ideias feitas, confortáveis e cortadas à medida: "A fé é do foro pessoal; não há problemas da filosofia, só há textos filosóficos e o nosso papel não é pensar sobre os problemas filosóficos e ter uma posição própria, crítica e fundamentada, mas antes repetir o que disseram os filósofos mortos; a ciência é o Mal; a razão também; a discussão de ideias também; a filosofia também."
Quando um aluno mais inteligente pergunta inocentemente ao Professor Fariseu se ele pensa que Deus existe, numa aula em que estejam a estudar um texto de Tomás de Aquino que apresenta vários argumentos a favor de Deus, ou quando um aluno pergunta o que pensa o Professor Fariseu que é a verdade quando se está a estudar um texto de Aristóteles sobre a verdade, o Professor Fariseu grita, perturbado: "O que penso eu? Não penso nada! Por que razão havia de pensar alguma coisa? Nós não estamos aqui para dizer o que pensamos, mas para dizer o que pensavam os filósofos mortos e enterrados, pacíficos nos seus túmulos, graças ao Senhor!"
E o Professor Fariseu tem legiões de estudantes fariseus, dispostos a repetir acriticamente todas as jogadas farisaicas do Professor Fariseu, jogadas que têm por objectivo último evitar a discussão de ideias, evitar o incómodo de ver as nossas convicções perante o tribunal da razão. O Estudante Fariseu vai gritar em todo o lado as grandes verdades reveladas da anti-filosofia farisaica, vai embarcar com gosto nas especulações turvas e pacíficas de sociologia e psicologia barata, vai decorar todas as passagens dos grandes Fariseus do passado que peroraram contra a filosofia e contra a razão e contra tudo o que é razoável, e que exaltaram antes a fé cega, a convicção surda a argumentos, a teoria tonta, os argumentos infanto-juvenis. O Professor Fariseu sorri, finalmente, satisfeito; o seu papel no ensino da filosofia está cumprido. Conseguiu fazer implodir uma tradição com 2500 anos e transformá-la num palavreado turvo anódino e pacífico, mas com tiradas de aspecto profundo e revolucionário. "São só palavras", pensa o Professor Fariseu satisfeito, "são só palavras".
A questão interessante é esta: como é possível que o Fariseu, anti-filósofo, anti-discussão, anti-filosofia, anti-racional, e que ignora os problemas, as teorias e os argumentos centrais da filosofia, clássica e contemporânea, singre no nosso ensino? Deixo o leitor com esta questão singela, na esperança de que comece a perceber o que está em causa quando há pessoas a lutar pelo direito a uma forma não farisaica de estudar e ensinar filosofia.

222) Millôr sobre os entusiastas da livre-iniciativa.

"Ninguém fala mais entusiasticamente de livre empresa e
competição, de leis de mercado e 'que vença o melhor',
do que a pessoa que herdou tudo do pai"

Millôr

221) Pré-Sal: uma campanha ditada pelos interesses políticos do governo.

Pre-Sal: uma campanha ditada pelos interesses politicos do governo

Este engenheiro entrevistado pela Folha de S.Paulo confirma o que já se sabia desde o começo: o governo vem fazendo política com uma coisa muito séria, que é a exploração de petróleo.
Ele vem ditando um ritmo acelerado nos investimentos do pré-sal, fazendo uma confusão dos diabos no regime de exploração (que ele mudou completamente para satisfazer suas necessidades de demagogia política, jogando os estados uns contra os outros), estatizando projetos que poderiam tranquilamente ser realizados ao abrigo do antigo regime de concessão, retirando dinheiro necessário a investimentos sociais muito mais importantes para a coletividade do que essa necessidade febril de dar recursos à companhia (que, num regime normal de exploração, prospecção e produção, poderia conseguir esses recursos no mercado internacional de créditos), distorcendo a agenda financeira do Tesouro e do BNDES, enfim, manipulando politicamente a voracidade sempre manifesta dos políticos por novos recursos para gastar. Uma vergonha.
Paulo Roberto de Almeida
(Shanghai, 18.06.2010)

Campanha do pré-sal terá de ser revista, diz especialista
AGNALDO BRITO
Folha de S.Paulo, 13/06/2010

DE SÃO PAULO - Crítico da correria imposta pelo governo Lula à Petrobras, Newton Monteiro, ex-funcionário da estatal e ex-diretor de exploração da ANP (Agência Nacional do Petróleo), afirma que atual campanha para o investimento no pré-sal será revista pelo próximo presidente.

Para ele, simplesmente é impossível cumprir um programa com investimentos de US$ 200 bilhões a US$ 220 bilhões em cinco anos, com os recursos financeiros e humanos à disposição do país. Ele defende novas concessões, principalmente em terra, onde a exploração é mínima.

Monteiro diz que a pressa do governo brasileiro para o pré-sal é uma questão meramente política. "O grupo técnico da Petrobras tem a noção perfeita de quanto tempo esse processo [da descoberta ao início da produção] leva", diz.

A seguir, os princípios tópicos da entrevista
Ritmo
O volume de recurso para o pré-sal está muito acima do nível que a Petrobras estava acostumada a trabalhar. A companhia está numa escala fora do que costuma fazer.

Tempo
Há uma coisa que nós não estamos levando muito em consideração nessa equação toda do pré-sal, que é o tempo. Os projetos para prospecção e exploração de petróleo não estão nas prateleiras. O projeto em águas profundas não apareceu da noite para o dia. A diferença é que naquela época não havia essa pressa que há hoje em ter essa receita.

Retorno
Vai levar pelo menos 10 anos para alguém começar a ter receita com o pré-sal. Não é com os testes que vai se obter isso. Não é colocando um navio para produzir 100 mil barris por dia que você terá esse recurso do pré-sal. Se fizer assim, vai levar 170 anos para obter o retorno.

Gente
De uns anos para cá, a Petrobras perdeu grande parte do pessoal especializado. Segundo a turma do recursos humanos, quase 50% do pessoal da Petrobras tem cinco anos de experiência. São caras competentes, mas falta a vivência. Em petróleo, há muito de empirismo e de experiência.

Volta ao passado
Nos anos 60, quando a gente entrava na Petrobras, precisávamos fazer um curso intensivo de inglês para poder falar com os chefes. Não vamos ter gente para tocar tanto projeto. Caso contrário vamos voltar ao passado, quando entravamos numa plataforma da Petrobras e só tinha gringo. Nós substituímos esses caras. Vamos voltar a essa situação?

Limites
Quando se produz petróleo em terra, como no Iraque, na Arábia Saudita ou na Rússia, é possível começar a produzir em até seis meses. Se não houver um oleoduto, é possível produzir e transportar o óleo por caminhão. Isso é impossível no mar. Lá só se produz quando tudo, rigorosamente tudo estiver pronto.

A política
Acho que o pré-sal segue o viés político, algo complicado. Grupos técnicos da Petrobras têm perfeita noção do tempo desse processo [da descoberta ao início da produção]. Vários amigos meus que estão na Petrobras estão preocupados com isso.

Pré-sal revisto
A campanha para a exploração do pré-sal terá de ser revista. Até porque, é necessário saber o que vai ocorrer no Brasil. Se o país continuar a crescer e o pré-sal continuar com projeções para dez anos, corremos o risco de perder a autossuficiência.

Candidatos
Qualquer governante que assumir a Presidência da República em 2001 terá de pensar na revisão da campanha do pré-sal. Isso vai ser revisto, para o bem ou para o mal. Pode ser o [José] Serra (PSDB), a Marina [Silva] (PV), qualquer um terá de ter a própria visão. Acho que até o PT. Eles vão ficar quatro, oito anos. Essa situação atual sobre a Petrobras será revista.

Inexplorado
O Brasil tem hoje uma área de 6 milhões de quilômetros quadrados com potencial petrolífero. A exploração on shore (em terra) é hoje de 500 mil quilômetros quadrados. A dúvida no Brasil hoje é a seguinte: vamos sair da era do petróleo sem aproveitar esse grande potencial que nós temos? A Petrobras está no mar. Tudo bem, mas e o resto?

Desde Cabral
Desde Cabral até 2008, o Brasil furou 24 mil poços de petróleo. Nesse mesmo período, os Estados Unidos furaram 4,5 milhões. A Rússia furou no mesmo período 550 mil poços. Como se vê, falta muito coisa a fazer. Nossa área é quase do tamanho da dos Estados Unidos, mas furamos pouquíssimo.

Preço do petróleo
A tendência é de estabilidade. Sem ruído, o preço ficará estável. O mundo está consumindo entre 80 e 90 milhões de barris por dia, não mais do que isso. Mas as previsões de preço e de produção de petróleo estão sempre erradas. A questão é que se negocia diariamente cinco a seis vezes a produção do mundo. É muito difícil avaliar isso.

Acidente no Golfo
Acho que está vazando lá entre 20 e 30 mil barris por dia. A Petrobras tem muito mais experiência do que a BP na exploração em águas profundas. A exploração em águas profundas no Golfo do México está começando agora. A Petrobras, o Ibama estão lá para ver como é a situação.

220) Religion in politics, stupidly.


Religion in politics, stupidly
Oct 19th 2010, 20:07 by D.L. | PHILADELPHIA
THOSE dueling Jack Conway-Rand Paul ads continue to generate online heat. First, Mr Conway uses stories of Mr Paul engaged in college pranks to accuse him of being anti-Christian, then Mr Paul replies by publicly confessing his love for Jesus Christ. Unemployment’s stuck above 9%, we’ve been at war for nearly a decade, the federal government is running enormous deficits, and this is what Kentucky’s Senate candidates are debating? You don’t need to have especially high expectations for democratic government to find the whole spectacle pretty repulsive.
At the same time, though, I think that some of Mr Conway’s liberal critics, such as theNew Republic’s Jonathan Chait, are wrong to assert that "an atheist, which is what I’m pretty sure Paul is, ought to be able to run for office without having his belief system publicly interrogated." And why is that, exactly? I realise that atheists face a particularly high hurdle in running for office in the United States, with a higher percentage of Americans declaring themselves willing to vote for a black (94%), Jewish (92%), female (88%), Hispanic (87%), Mormon (72%), or gay (55%) candidate than for a non-believer (45%). But that doesn’t mean that an atheist’s beliefs should be any more off-limits to public scrutiny than a religious candidate’s.
Some atheists, such as Richard Dawkins, believe that religious education is a form of child abuse. It should be considered perfectly appropriate to ask an atheist candidate whether he agrees with this blatantly intolerant position. Various religious groups, meanwhile, encourage their members to believe things that might clash with the requirements of holding high office. Mormons teach that the head of their church is a prophet of God and his mouthpiece on earth. A large portion of evangelical Protestants affirm biblical inerrancy and reject science as a method for determining the truth about the natural world. Many Pentecostals believe that God is directing world history toward an apocalyptic cataclysm in the Middle East.
All of this is supposed to be off-limits to public scrutiny? Why? Because we want our leaders to conceal their most deeply held and potentially dangerous views? Or is it that we fear that our nominally religious politicians will be forced to admit that their garish displays of public religiosity are a pious sham—a put-on designed to appeal to simple-minded voters who care more about cultural signaling than evaluating the details of competing public policy proposals?
The problem with the dueling Conway-Paul ads isn’t that they raise questions about religion. It’s that they raise those questions stupidly.

219) A militância do PT é compatível com os preceitos democráticos?

Como diria Weber, mas em outras palavras: é próprio do devoto fanático o sacrifício da razão. A ação de muitos militantes petistas tem sido exemplificação de tal assertiva. Falo em dois casos específicos: o primeiro, do grupo que foi pressionar o dono de uma das gráficas responsáveis pela impressão do folheto clerical anti-Dilma; o segundo, do incidente em que foi arremessado um objeto na cabeça de José Serra. Estes são bons exemplos de quando a devoção a uma causa faz com que pessoas cometam os atos mais sórdidos a despeito de qualquer questionamento moral ou racional. Não penso haver dúvidas em relação ao fato de terem extrapolado o marco legal sobre o qual está assentada nossa democracia ao intimidarem o gráfico à revelia de seus direitos individuais e ao hostilizarem um candidato legítimo à Presidência da República.

A desculpa de que houve manipulação de imagens não se aplica ao primeiro caso quando o próprio vídeo veiculado no sítio do partido mostra perfeitamente quão insidiosa foi a situação. Quanto ao segundo caso, há quem diga que foi armação do candidato do PSDB e queira minorar a situação. O ponto não é o que foi jogado nele, mas a hostilidade a ele. Assim, teria-se o problema mesmo se fosse um algodão que o atingisse. O fato ocorrido foi a ação de elementos petistas para que a passeata do candidato da oposição não seguisse seu devido curso. Certamente, um ataque a um instituto democrático.

Houve quem quisesse estabelecer alguma relação disto com a S.A. nazista. Em verdade, uma comparação muito fraca quando se conhece a história brasileira. Esse tipo de fato remete-nos ao tempo em que a política carioca era feita nas ruas pelos capoeiras. Os políticos mantinham capangas para pressionar ou eliminar seus desafetos. Formavam-se gangues que muitas vezes se enfrentavam dando grande instabilidade ao panorama político de então. Percebe-se aí o expediente de meios extra-legais respondendo a interesses particulares. Este é um traço não de um ambiente totalitário, senão de uma sociedade patrimonialista como ainda é a nossa. Denota a fraqueza de nossas instituições que ainda não conseguem impor seu jugo a todos no território brasileiro.

Por fim, devem ser penalizados aqueles que se valeram de meios violentos ou de coação para atingirem seus fins políticos. A impunidade poderá servir como estímulo à formação de grupos que recorram à violência para fazer justiça com as próprias mãos. Neste caso, estarão soltos os monstros da barbárie.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
22 0316 out 2010. 

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

218) Problema finalmente eliminado?

Minha internet parava de funcionar quando da minha tentativa de publicação de algum texto aqui. Aparentemente, solucionei o problema (desta vez, acredito que sim). Isto e mais meu monte de leituras atrasadas têm feito com que minhas publicações rareiem neste espaço. Todavia, logo espero voltar a postar material aqui com maior frequência.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
13 1317 out 2010.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

217) A "maldicao" do petroleo, estilo brasileiro...

A disponibilidade, em abundância, desse mineral estratégico na atual conformação civilizatória e industrial, torna os países que o exploram "rentistas", no pior sentido da palavra. E ser rentista é a pior coisa que possa existir para um país.
Pois bem, o Brasil ainda não virou rentista do petróleo -- embora alguns prefeitos e o governo do Rio de Janeiro desejassem sê-lo, e de certo modo o são, ao se apropriarem de uma extraordinária renda, usada de forma irracional -- mas corre o risco de atrair desde já uma espécie de "maldição" financeira sobre a Petrobras, a partir das trapalhadas patéticas feitas desde o começo em torno dos recursos do pré-sal.
O governo ainda afunda a Petrobras, não só pela utilização política que ele faz dela, mas também por obrigá-la, por essa nova lei talhada para o pré-sal, a participar de absolutamente todas as etapas de todas as concessões a serem feitas, o que obriga a empresa a se capitalizar muito além de sua capacidade, gerando desconfiança nos investidores quanto aos bons fundamentos de sua gestão (politizada, claro).
Em lugar de o governo manter o regime anterior -- ele já teria arrecadado uma fábula das empresas estrangeiras interessadas nessa fabulosa província petrolífera, sem correr nenhum risco -- ele se meteu a sujar a mão de petróleo, literalmente, por pura demagogia, e também pela insanidade mental que atinge todos os políticos de países rentistas do petróleo.
Os nossos não poderiam ficar atrás, contaminando aliás a população, que também quer ser rentista.
Não existe coisa mais patética a que eu assisti na minha vida (pela TV e fotos nos jornais, claro) do que a tal "marcha" dos prefeitos e do governador do Rio de Janeiro "em defesa dos royalties" do petróleo: ou seja, eles querem ser rentistas...
Triste, se não fosse altamente perigoso para a psicologia nacional. Já tem um bocado de gente aprendendo a viver de esmola pública. Agora também tem gente que quer viver da esmola do petrólo.
Paulo Roberto de Almeida

PETROBRAS NA IMPRENSA
Inferno astral do pré-sal
Por Rolf Kuntz
Observatório da Imprensa24/8/2010

A Vale tornou-se em 19 de agosto a maior empresa brasileira em valor de mercado – R$ 254,9 bilhões naquele dia. A Petrobras ficou pouco abaixo, com R$ 253,1 bilhões. A ultrapassagem foi manchete do Valor, no dia seguinte, sexta (20/8), e ganhou destaque em toda a grande imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Mas a ultrapassagem foi apenas um evento espetacular, e talvez de curta duração, no meio de uma história muito mais importante e mais longa. As ações da petrolífera estatal perderam cerca de um quarto do valor desde o começo do ano. As cotações começaram a fraquejar antes disso, quando surgiram dúvidas sobre como seria a capitalização da empresa.

A Petrobras precisa de muito dinheiro para a exploração do pré-sal, um dos maiores desafios técnicos e financeiros de sua história, talvez o maior. Terá de levantar, em pouco tempo, pelo menos uns US$ 150 bilhões para enfrentar a tarefa. O empreendimento pode ser muito lucrativo no longo prazo, mas grandes investidores têm preferido evitar o risco, neste momento.

Dificuldades reconhecidas
A Petrobras atravessa um inferno astral desde as primeiras informações sobre a capitalização. Em um ano, até a semana passada, seu valor de mercado encolheu cerca de R$ 66 bilhões. O drama começou com as incertezas sobre como o governo participará do aumento de capital. Em princípio, a União cederá à empresa 5 bilhões de barris de petróleo do pré-sal, uma riqueza ainda enterrada vários quilômetros abaixo da superfície do mar. Na prática, a União entregará à empresa títulos da dívida, para adiantar sua participação no reforço do capital. A estatal ficará com o petróleo, mais tarde, e liquidará o financiamento recebido na fase inicial.

Até aí, nenhum grande mistério, apesar da aparente complicação. O grande problema está na avaliação dos 5 bilhões de barris. A Petrobras, segundo informações extraoficiais, apresentou avaliações entre US$ 5 e US$ 6 por barril. As cifras da Agência Nacional do Petróleo (ANP), de acordo com as mesmas fontes, ficaram entre US$ 10 e US$ 12. A diferença é enorme e, quanto mais alto o preço de cada barril, maior será o desafio para os acionistas minoritários – hoje detentores, em conjunto, de 60,2% do capital total. A União detém 32,1% e a Bndespar, 7,7%. A maioria das ações com direito a voto pertence ao Estado brasileiro.

A história tem sido bem coberta pelos jornais, com detalhes suficientes para esclarecer o leitor medianamente informado. A hipótese de um novo adiamento da capitalização foi noticiada na semana passada e desmentido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. Talvez não haja prorrogação, mas a hipótese foi certamente considerada em Brasília. O limite para encerramento da operação, 30 de setembro, é muito próximo das eleições.

No fim da semana, a ideia de um aumento de participação estatal na Petrobrás já estava em circulação, para o caso de uma contribuição insuficiente dos minoritários. Mas os conflitos entre a empresa e a ANP eram mais amplos. Envolviam também o grau de nacionalização de máquinas e equipamentos destinados à exploração do pré-sal e à produção de petróleo e gás na área. A indústria brasileira, segundo a estatal, será incapaz de fornecer todo o material necessário, pelo menos durante algum tempo. A ANP e o Executivo já reconheceram a dificuldade, mas a questão não está encerrada, como ficou claro em reportagem publicada pelo Estado de S. Paulo na quarta-feira (19/8). Na fase de desenvolvimento do pré-sal, a presença de produtos e serviços nacionais poderá ficar abaixo dos 65% defendidos pelo governo, mas ainda seria preciso definir um número.

Tretas e mutretas
As polêmicas em torno da capitalização têm aparecido com destaque na imprensa internacional. Mas há muito mais especulações sobre o risco do investimento. O desastre com a plataforma da British Petroleum no Golfo do México foi lembrado em matérias sobre o pré-sal, um projeto de exploração e produção em águas muito mais profundas. Além disso, sindicalistas denunciaram más condições de manutenção em plataformas brasileiras.

O assunto deixou de ser especulativo quando o Globo publicou fotos coloridas de equipamentos enferrujados. Sem poder continuar negando o problema, o presidente da empresa, José Sérgio Gabrielli, acabou admitindo: algumas plataformas da Bacia de Campos, segundo ele, "realmente estavam feias, com problemas de conservação". A Petrobras divulgou uma nota sobre o programa de manutenção e negou haver risco para os trabalhadores. Mas as fotos forçaram a empresa a reconhecer a existência de algo fora dos padrões.

As plataformas não foram as únicas coisas feias mostradas pela imprensa na mesma semana. O Valor deu manchete com a tentativa de aumento e de indexação de salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do pessoal da Procuradoria-Geral da União. Dois projetos foram enviados ao Congresso, um no dia 12, outro no dia 16, com as propostas de novos benefícios para suas excelências. Os dois textos são iguaizinhos exceto por um detalhe: um se refere ao STF, o outro à Procuradoria. As duas propostas incluem a substituição, a partir de 2012, de leis de reajuste aprovadas no Congresso por atos administrativos assinados pelos chefes do Judiciário e do Ministério Público. Levantada a história, outros jornalistas foram atrás dos detalhes e da reação dos congressistas.

O Brasil Econômico também deu uma boa contribuição para quem quer conhecer um pouco mais da administração pública brasileira. Auditorias da Controladoria Geral da União em cidades com menos de 500 mil habitantes detectaram indícios de fraudes em 95% das licitações. Foram encontradas, entre outras irregularidades, alterações em documentos já assinados e até casos de editais de concorrência sem divulgação.

Valeu a pena, ultimamente, gastar dinheiro com mais de um jornal.