sábado, 21 de agosto de 2010

192) Evaldo Cabral de Mello, em entrevista ao Estadão, sobre o domínio holandês no Nordeste.

Evaldo Cabral de Mello lança duas obras sobre períodos distintos da formação do Brasil
24 de julho de 2010 | 6h 00
Evaldo Cabral de Mello organizou os livros 'Brasil Holandês' e 'Joaquim Nabuco Essencial'. Foto: Fábio Motta/AE
Antonio Gonçalves Filho

SÃO PAULO - O historiador Evaldo Cabral de Mello publicou há 35 anos seu primeiro livro, Olinda Restaurada, em que abordava de forma original os anos da ocupação holandesa no Brasil, analisando as particularidades do conflito entre holandeses e a população luso-brasileira de Pernambuco. Aos 74 anos, o ex-diplomata retoma o tema com fôlego ainda maior em O Brasil Holandês, que a Companhia das Letras lança junto a um outro livro, dedicado ao político e escritor abolicionista Joaquim Nabuco (1849-1910), ambos inaugurando o selo Penguin/Companhia das Letras.

Joaquim Nabuco Essencial é uma compilação de textos do autor de O Abolicionismo (1883), que está sendo relançado em edição de bolso pela Bestbolso (Editora Best Seller). Nabuco é estudado por Cabral de Mello há muitos anos, assim como o holandês Maurício de Nassau, personagem central de O Brasil Holandês, que havia sido biografado pelo historiador em Nassau: Governador do Brasil Holandês (2006). Sobre os documentos inéditos pesquisados por ele para seu novo livro, Evaldo Cabral de Mello falou ao Sabático, enfatizando que o padre Antonio Vieira foi um entreguista e que nunca interessou aos portugueses ou holandeses revelar quem foi o real Calabar, que se bandeou para o lado dos últimos.

O senhor diz, no prefácio de O Brasil Holandês, que organizar uma coletânea de textos do período holandês pode causar certo embaraço, motivado pela escolha entre documentos oficiais e relatos anônimos. Como fez para conseguir a equilibrada junção de depoimentos no episódio Calabar?

Há relativamente pouca coisa sobre Calabar. Nesse caso me concentrei nos testemunhos da época, como o de Manuel Calado, que o conheceu, e desse mercenário inglês, Pudsey, que foi companheiro de armas quando Calabar passou para o lado holandês. Espiei a correspondência oficial holandesa, mas essa apenas o menciona, e ainda assim não frequentemente. É preciso consultar as memórias do quarto donatário de Pernambuco, que atribui especialmente a Calabar a iniciativa de uma série de operações militares, sobretudo navais, que foram fundamentais para o êxito holandês. No fundo, o que se tem é um desequilíbrio: temos poucas informações do lado holandês e muitas do lado português, ambos suspeitos, evidentemente. As fontes holandeses que se carteavam com a metrópole não tinham oficiais interessados em sublinhar a atuação de um mestiço brasileiro (Calabar era mameluco). Eles considerariam isso ofensivo à capacidade profissional deles. Já o lado luso-brasileiro estava à procura de um bode expiatório, de modo que tinha interesse em exagerar o papel de Calabar.

Os sete anos de governo de Maurício de Nassau, segundo o livro, constituíram um período de relativa paz, uma espécie de Idade de Ouro do Brasil. Como o senhor imagina o Brasil se ele não tivesse voltado à Holanda? O calvinismo teria transformado o País numa outra nação?

Não creio. Eles dependiam da comunidade luso-brasileira para botar o Brasil para funcionar. A Holanda era um dos países mais prósperos da Europa. Não houve praticamente imigração maciça de holandeses para o Brasil. Muitos dos soldados da Companhia das Índias eram mercenários ingleses, franceses, alemães e poloneses. Nunca se estabeleceu uma corrente migratória holandesa estável e constante para o Brasil que permitisse a longo prazo "holandizar" o Nordeste. Eles ficaram sempre dependendo da contribuição econômica da comunidade luso-brasileira, que controlava a maior parte dos engenhos.

Num balanço desses sete anos de governo, qual a conclusão a que o senhor chegou em relação a Nassau?

Em relação a Nassau não há dúvida de que se tratava de um homem de Estado de grandes qualidades. Ele foi sobretudo um administrador e um homem de bom gosto, mas não um grande militar no sentido heroico da palavra. Era um profissional competente, mas não muito mais do que isso.

O equilíbrio estratégico no Brasil foi ameaçado com o golpe de Estado que, em 1640, colocou um ponto final nos 60 anos de domínio espanhol em Portugal, transformando-o em aliado dos Países Baixos na guerra contra a Espanha. Isso diminuiu o antagonismo entre os moradores portugueses de Olinda, a Igreja Reformada e os holandeses?

Não, pelo contrário. Há uma carta, de setembro 1642, em que Nassau diz expressamente que a restauração da independência portuguesa constituía uma ameaça ao futuro do Brasil holandês, porque ela daria o exemplo para que o mesmo acontecesse no País, incitando a comunidade luso-brasileira a também querer a restauração da coroa portuguesa. Ele teve uma visão bastante clara do que viria acontecer no futuro - e isso três anos antes de arrebentar a revolução. Foi de uma lucidez extraordinária.

Muitos historiadores estrangeiros, entre eles Robert Smith, creditam ao governo nassoviano o mérito de ter construído a primeira cidade digna deste nome na América portuguesa. As obras de Nassau não poderiam ter sido produzidas pelos habitantes luso-brasileiros de Olinda?

Não, porque a cultura urbana portuguesa era completamente diferente da holandesa, muito mais avançada. A Holanda era basicamente um país de cultura urbana. Mais da metade da população holandesa vivia no meio urbano. Era o país mais urbanizado da Europa Ocidental, muito mais que a França e a Inglaterra.

Sabe-se pouco sobre a comunidade judaica do Brasil holandês, composta majoritariamente de judeus portugueses emigrados para Amsterdã. Qual a marca deixada pela comunidade além das práticas comerciais?

Ela deixou marcas importantes. A primeira sinagoga das Américas é a do Recife. Há, inclusive, um grande poeta sefardita holandês que escreveu um poema sobre o sítio do Recife pelos portugueses. O problema todo é que a comunidade judaica tinha de enfrentar a hostilidade em duas frentes: a dos portugueses e dos holandeses, que não gostavam da concorrência econômica dos judeus que, por saber português, eram os intermediários incontornáveis nos negócios. Então, muitos viraram corretores, fazendo a ponte entre o produtor rural e o comerciante da cidade.

Já as relações entre os holandeses e os índios parecem ter maiores registros. Na breve descrição dos tapuias por Gerbrantsz Hulck, em 1653, revela-se um deslumbramento com o antípoda que poderia ter resultado numa tentativa de miscigenação, a exemplo dos portugueses. Por que os holandeses eram mais resistentes a esse trânsito cultural?

Porque eram calvinistas. Como toda religião que se sente insegura, o calvinismo primava pelo radicalismo. Nassau, no entanto, nunca se deixou levar pelos ministros calvinistas. Eles pediam coisas, faziam pressão e o Nassau respondia que ia providenciar, mas não fazia nada. Uma coisa ele recomenda numa carta à junta que o sucedeu: não mexer em assunto religioso, pois era a coisa que mais sensibilizava os portugueses. Ele recomendava não convertê-los, respeitar o status quo, a licença tácita de culto católico que tinham os portugueses no interior do Brasil holandês, mas não no Recife. Esses se consideravam injustiçados porque acabariam ficando sem o clero se o governo holandês não permitisse mais a entrada de padres.

Os franceses, especialmente Pierre Moreau, deixaram registrada sua indignação ao modo bárbaro como os escravos eram tratados no Brasil. Houve algum progresso com a intervenção dos ministros calvinistas?

As providências tomadas pelo governo de Nassau contra os quilombos tinham algo a ver com a imitação que as comunidades negras dos Palmares faziam da religião e do modo de governar dos portugueses. Não me recordo de nenhum registro, de nenhuma intervenção do governo holandês no aspecto privado das relações senhor e escravo nos engenhos. O que houve foi que Nassau teve uma atitude benigna em relação aos soldados negros que haviam fugido e militado no exército holandês, inclusive alforriando alguns deles. Mas os holandeses não queriam interferir na administração dos engenhos, pois sabiam que isso iria acarretar prejuízos ao comércio. Eles eram completamente pragmáticos. Estavam ali para colocar a coisa para funcionar. Não queriam mexer muito na situação. Eles mandaram, sim, uma expedição para reprimir os quilombos de Palmares, isso no fim do governo de Nassau, mas esse tipo de expedição foi inútil, porque era uma guerra de guerrilhas. Chegavam os holandeses, destruíam os mucambos, as populações dos quilombos se dispersavam e depois voltavam e se concentravam de novo. Como elas estavam na extremidade sudoeste do Brasil holandês, era difícil. Só os portugueses, e ainda assim no fim do século 17, é que conseguiram, colocando guarnições permanentes de soldados paulistas e índios naquela região dos Palmares.

A carestia do Brasil holandês aliada à falência da Companhia das Índias foram decisivas para o ocaso do governo de Nassau. Ele gastava demais e governava de menos ou a restauração da independência portuguesa teve um papel decisivo na sua queda?

O papel decisivo foi o da direção da Companhia das Índias, que nunca engoliu a indicação dele, imposta pelo primo, o príncipe de Orange. Ao mesmo tempo em que houve a paz entre Portugal e Holanda, em 1641, eles tinham um belo pretexto para tirar Nassau, embora este alertasse que a situação iria ficar perigosa. Quanto à crise econômica, era realmente incontrolável. Houve uma queda forte do preço do açúcar e um endividamento adoidado por parte da comunidade luso-brasileira, de modo que não havia como pagar. Quando a Companhia da Índias assumiu as dívidas, ela só encampou a de 25 senhores de engenho, no total de 160. E eles tinham apenas três anos para pagar. Era uma situação sem saída.

Com a partida de Nassau, os conspiradores queriam massacrar as autoridades neerlandesas, reprisando a noite de São Bartolomeu parisiense. A insurreição de 1645 levou o governo português a uma posição cautelosa e um dos articuladores da paz, Antonio Vieira, dizia que Portugal perderia a guerra contra a Holanda. Como o senhor definiria o papel de Vieira nessa história?

No fim da vida, o padre Vieira, conselheiro de d. João IV, disse que aquilo não era opinião dele, mas sim do rei. É verdade, mas foi ele quem soprou em seu ouvido aquelas ideias de que Portugal perderia a guerra. Foi o historiador Afonso Pena Jr., o filho do ex-presidente, quem revelou que o padre Vieira, desde 1640, antes da independência portuguesa, portanto, já defendia num sermão a entrega do Brasil aos holandeses. Foi um entreguista crônico.

Sobre Joaquim Nabuco, um dos textos dele selecionados pelo senhor para Nabuco Essencial mostra que ele acusava Portugal de ter mandado para cá a escória social do país. Nabuco, um abolicionista, teria uma certa crença eugênica?

Sei que há essa teoria por aí. Numa conversa com Raymond Aron sobre as relações de d. Pedro II com Gobineau, ele lembrou que, no século 19, todo mundo era racista. Devo dizer a favor de Nabuco que, quando você lê O Abolicionismo com cuidado, vê que ele não põe a culpa na raça negra africana como tal, mas na instituição da escravidão. Se Nabuco foi racista, ele escondeu bem. Não acredito que tenha sido. A perspectiva dele não era racial. Uma das razões da modernidade de Nabuco hoje é o relativo arcaísmo do conhecimento sociológico dele. Quando você lê seu diário, vê que não tinha grande leituras sociológicas, de modo que ele escapou a tudo o que era mania sociológica na Europa e que marcaria a obra de Euclides da Cunha. O Abolicionismo é um livro de propaganda em que faz uma análise dos efeitos da escravidão e ele poderia ter sido escrito por qualquer pessoa culta que conhecesse o Brasil e não fosse necessariamente um sociólogo.

Por que o senhor privilegiou no livro os textos do Nabuco abolicionista e escritor político, e praticamente ignorou o historiador e homem religioso?

Eu não ignorei o historiador. O que ignorei foi o poeta da juventude, o religioso, o diplomata e o literato, porque reputo que são facetas menos importantes que essas duas. Como a obra completa dele tem 18 volumes, tinha um dilema: ou colocava um bocadinho de cada livro e o leitor perderia a complexidade das análises dele ou então escolhia um ou dois temas, ele como político e como reformador social, que foram as facetas mais importantes.

Nabuco fala do imperador sempre com relutância, dizendo-se um escritor cristão ingrato se derrubasse a monarquia um ano depois da lei de 13 de maio. O senhor diria que ele foi um homem dividido, abjurando de certo modo as palavras fortes de O Abolicionismo para tentar uma espécie de conciliação?

Dividido ele devia ser, sem dúvida, pois era monarquista convicto. Ao mesmo tempo, a urgência da reforma abolicionista era tal que, evidentemente, não é possível que Nabuco não tenha encarado, dois ou três anos antes da Abolição, a possibilidade desta levar de vencida o trono. É um problema de prioridade: o que era mais importante para ele, dar a liberdade aos escravos, que era uma reforma social em toda a extensão da palavra, ou fazer uma reforma meramente política como a que propôs - sem êxito - a federalização da monarquia, que não interessou nem aos republicanos, porque queriam a República Federalista, nem aos monárquicos, que ainda estavam apegados ao regime unitário? É preciso não esquecer: Nabuco foi o grande reformador social do Brasil, onde nunca houve uma reforma social da extensão e do impacto da Abolição, tudo isso feito de forma legal, por meios estritamente parlamentares, a mais importante da história brasileira.

Qual seria o traço moderno de Nabuco?

É difícil para a gente apreciá-lo, pois vivemos numa era em que predomina o gosto pelo radicalismo. Ele foi uma pessoa extremamente equilibrada, mesmo quando fazia a campanha abolicionista, com a possível exceção de alguns discursos no Recife no início da mesma. Mas, depois da queda da monarquia, ele se tornou o conservador que havia sido postergado por causa da reforma abolicionista. Ele criticou a República por não ter completado a obra da Abolição - incompleta até hoje. Nabuco era o tipo de homem que só se definia em função dela. Depois de 1900, você nota pelo diário que ele se desinteressou pelos aspectos sociais legados pela escravidão. Não me lembro de ter lido nenhuma crítica sua às condições de vida material da população de ex-escravos. Nabuco, lembre-se, foi criado como uma pessoa conservadora. Era, enfim, um liberal conservador. Mexia-se na escravidão, mas não na propriedade.


O Brasil Holandês

Organizador: Evaldo Cabral de Mello

Editora: Penguin/Companhia das Letras( 512 págs., R$ 28)

Joaquim Nabuco Essencial

Organizador: Evaldo Cabral de Mello

Editora: Penguin/Companhia das Letras (632 págs., R$ 32)

191) Segunda Ameaça, por Miriam Leitão.

Miriam Leitão
O Globo, 18 de agosto de 2010

O Brasil perderá esta eleição, independentemente de quem vença, se ficarem consagrados comportamentos desviantes assustadoramente presentes na política brasileira. Uso de um fundo de pensão para construir falsas acusações contra adversários, funcionários da Receita acessando dados protegidos por sigilo, centrais de dossiês montados por pessoas próximas ao presidente.

A cada eleição, fatos estarrecedores têm sido aceitos como normais na paisagem política, e eles não são aceitáveis. Quando a Polícia Federal entrou no Hotel Ibis, em São Paulo, em 2006, e encontrou um grupo com a extravagante quantia de R$1,7 milhão em dinheiro vivo tentando comprar um dossiê falso, havia duas notícias. Uma boa: a PF continuava trabalhando de forma independente. A ruim: pessoas da copa, cozinha, churrasqueira e campanha do presidente da República e do candidato a governador pelo PT em São Paulo estavam com dinheiro sem origem comprovada e se preparando para um ato condenável. A pior notícia veio depois: eles ficaram impunes.

Nesta eleição, depoimentos e fatos mostram que estão virando parte da prática política, principalmente do PT, a construção de falsas acusações contra adversários, o trabalho de espionagem a partir da máquina pública, o uso político de locais que não pertencem aos partidos.

As notícias têm se repetido com assustadora frequência. O verdadeiro perigo é que se consagre esse tipo de método da luta política. A democracia não é ameaçada apenas quando militares saem dos quartéis e editam atos institucionais. Ela corre o risco de "avacalhação", para usar palavra recente do presidente Lula, quando pediu respeito às leis criminosas do Irã.

Sobre o desrespeito às leis democráticas brasileiras, Lula não teme processo de "avacalhação", pelo visto. A Receita Federal não presta as informações que tem o dever de prestar sobre os motivos que levaram seus funcionários a acessarem, sem qualquer justificativa funcional, os dados da declaração de imposto de renda do secretário-geral do PSDB, Eduardo Jorge. Nem mesmo explica como os dados foram vazados de lá. Se a Receita não divulgar o que foi que aconteceu, com transparência, ela faz dois desserviços: sonega ao país informações que têm o dever de prestar antes das eleições; mina a confiança que o país tem na instituição, porque sua direção está adiando, por cumplicidade eleitoral, a explicação sobre o que houve naquela repartição.

Nas últimas duas semanas, a "Veja" trouxe entrevistas de pessoas diretamente ligadas ao governo e que trabalham em múltiplos porões de campanha. O que eles demonstram é que aquele grupo de aloprados do Ibis não foi um fato isolado. Virou prática, hábito, rotina no Partido dos Trabalhadores. Geraldo Xavier Santiago, ex-diretor da Previ, contou à revista que o fundo de pensão, uma instituição de poupança de direito privado cuja função é garantir a aposentadoria dos funcionários do Banco do Brasil, era usada para interesses partidários. Com objetivos e métodos escusos. Virou uma central de espionagem de adversários políticos. Agora, é o sindicalista Wagner Cinchetto que fala de uma central de produção de espionagem e disparos contra adversários; não apenas tucanos, mas qualquer um que subisse nas pesquisas.

Esse submundo é um caso de polícia, mas há outros comportamentos de autoridades que passaram a ser considerados normais nas atuais eleições. E são distorções. Não é normal que todos os órgãos passem a funcionar como ecos do debate eleitoral, usando funcionários pagos com os salários de todos nós, estruturas mantidas pelos contribuintes. Todos os ministérios se mobilizam para consolidar as versões fantasiosas da candidata do governo ou atacar adversários, agindo como extensões do comitê de campanha. Isso é totalmente irregular. Na semana passada, até o Ministério da Fazenda fez isso. Um relatório que é divulgado de forma rotineira, virou palanque e peça de propaganda, com o ministro indo pessoalmente bater bumbo sobre gráficos manipulados para ampliar os feitos do atual governo e deprimir os do anterior. O que deveria ser técnico virou politiqueiro; o que deveria ser prestação de contas e análise de conjuntura virou peça de propaganda.

Um governo não pode usar dessa forma a máquina pública para se perpetuar; órgãos públicos não são subsedes de comitês de campanha; fundos de pensão não são central de fabricação de acusações falsas; o governo não pode usar os acessos que tem a dados dos cidadãos para espionar. Isso mina, desqualifica e põe em perigo a democracia. Ela pressupõe a neutralidade da máquina mesmo em momentos de paixão política. Nenhuma democracia consolidada aceitaria o que acontece aqui. A Inglaterra acabou de passar por uma eleição cheia de paixões em que o governo trabalhista perdeu por pouco, mas não se viu lá nada do que aqui está sendo apresentado aos brasileiros com naturalidade, como parte da disputa política. Crime é crime. Luta política é um embate de propostas, estilos e visões. O perigoso é essa mistura. Como a História já cansou de demonstrar, democracia não significa apenas eleições periódicas. A manipulação da vontade do eleitor, o uso de meios ilícitos, o abuso do governante ameaçam a liberdade, tanto quanto um ato institucional.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

190) Entenda como foi feito o logo da Copa do Mundo no Brasil em 2014.

189) Piet Mondrian.

 

Não dedicarei muitas palavras a isto. Apenas publico meu mais novo achado: Piet Mondrian. Já conhecia o pintor, mas não este sítio. Não tive como examiná-lo muito bem; espero que os interessados apreciem.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
20 0236 ago 2010.

domingo, 15 de agosto de 2010

188) SVT - Sistema Vagabundo de Televisão.

Resta-me apenas lamentar por não mais contar com um programa de um humor mais inteligente como o da TV Pirata em relação ao que a TV aberta disponibiliza hoje. Ao menos o politicamente correto não estava tão em voga a ponto de impedir a evidente crítica presente na sigla SVT. Infelizmente, o que se afirmou foi o modelo de A Praça é Nossa hoje representado na Rede Globo em Zorra Total. Consolidou-se, enfim, nosso sistema vagabundo de televisão nacional. O que não significa dizer que não haja programas bons...

Vinícius Portella

Porto Alegre,
15 0411 ago 2010.

187) Anteontem, foi sexta-feira, 13 de agosto, o mês do cachorro louco...

Anteontem, foi sexta-feira, 13 de agosto, o mês do cachorro louco... Além de qualquer palavra, a música de Celso Blues Boy - o tradutor do blues por estas bandas brasileiras.

V.P.

Porto Alegre,
15 0341 2010.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

186) No novo mapa do mundo, o país está maior; por Celso Amorim.

[título sob o qual foi publicado no Diplomatizzando]

No novo mapa do mundo, o País está maior
Celso Amorim
O Estado de S. Paulo, 09/08/2010

Uma boa política externa exige prudência, mas também ousadia. Em oito anos, o Brasil mudou de patamar, diz o chanceler

Há sete anos, quando se falava na necessidade de mudanças na geografia econômica mundial ou se dizia que o Brasil e outros países já deveriam desempenhar papel mais relevante na OMC ou integrar de modo permanente o Conselho de Segurança da ONU, muitos reagiam com ceticismo. O mundo e o Brasil têm mudado a uma velocidade acelerada, e algumas supostas "verdades" do passado vão se rendendo à evidências dos fatos. O diferencial de crescimento econômico em relação ao mundo desenvolvido tornou os países em desenvolvimento atores centrais na economia mundial.

A maior capacidade de articulação Sul-Sul - na OMC, no FMI, na ONU e em novas coalizões, como o BRIC - eleva a voz de países antes relegados a uma posição secundária. Quanto mais os países em desenvolvimento falam e cooperam entre si, mais são ouvidos pelos ricos. A recente crise financeira tornou ainda mais patente o fato de que o mundo não pode mais ser governado por um condomínio de poucos.

O Brasil tem procurado, de forma desassombrada, desempenhar seu papel neste novo quadro. Completados sete anos e meio do governo do Presidente Lula, a visão que se tem do País no exterior é outra. Já não precisamos ouvir os líderes mundiais e a imprensa internacional para sabermos que o Brasil tem um peso cada vez maior na discussão dos principais temas da agenda internacional, de mudança do clima a comércio, de finanças a paz e segurança.

Países como Brasil, China, Índia, África do Sul, Turquia e tantos outros trazem uma maneira nova de olhar os problemas do mundo e contribuem para um novo equilíbrio internacional.

No caso do Brasil, essa mudança de percepção deveu-se, em primeiro lugar, à transformação da realidade econômica, social e política do País. Avanços nos mais variados domínios - do equilíbrio macroeconômico ao resgate da dívida social - tornaram o Brasil mais estável e menos injusto. As qualidades pessoais e o envolvimento direto do presidente Lula com temas internacionais ajudaram a alçar o Brasil à condição de interlocutor indispensável nos principais debates da agenda internacional.

Foi nesse contexto que o Brasil desenvolveu uma política externa abrangente e pró-ativa. Construímos coalizões que foram além das alianças e relações tradicionais, as quais tratamos de manter e aprofundar, como no estabelecimento da Parceria Estratégica com a União Europeia ou do Diálogo de Parceria Global com os Estados Unidos.

O crescimento expressivo de nossas exportações para os países em desenvolvimento e a criação de mecanismos de diálogo e concertação, como a Unasul, o G-20 na OMC, o Fórum IBAS (Índia-Brasil-África do Sul) e o grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) refletiram essa orientação de uma política externa universalista e livre de visões acanhadas sobre o que pode e deve ser a atuação externa do Brasil.

A base dessa nova política externa foi o aprofundamento da integração sul-americana. Um dos grandes ativos de que o Brasil dispõe no cenário internacional é a convivência harmoniosa com sua vizinhança. O governo do presidente Lula empenhou-se, desde o primeiro dia, em integrar o continente sul-americano por meio do comércio, da infraestrutura e do diálogo político.

O Acordo Mercosul-Comunidade Andina criou, na prática, uma zona de livre comércio abrangendo toda a América do Sul. A integração física do continente avançou de forma notável, inclusive com a ligação entre o Atlântico e o Pacífico. Nossos esforços para a criação de uma comunidade sul-americana (CASA) resultaram na fundação de uma nova entidade - a União das Nações Sul-Americanas (Unasul).

Sobre as bases de uma América do Sul mais integrada, o Brasil ajudou a estabelecer mecanismos de diálogo e cooperação com países de outras regiões, fundados na percepção de que a realidade internacional já não comporta a marginalização do mundo em desenvolvimento. A formação do G-20 da OMC, na Reunião Ministerial de Cancún, em 2003, marcou a maioridade dos países do Sul, mudando de forma definitiva o padrão decisório nas negociações comerciais.

O IBAS respondeu aos anseios de concertação entre três grandes democracias multi-étnicas e multiculturais, que têm muito a dizer ao mundo em termos de afirmação da tolerância e de conciliação entre desenvolvimento e democracia. Além da concertação política e da cooperação entre os três países, o IBAS tornou-se um modelo em projetos em favor dos países mais pobres, demonstrando, na prática, que a solidariedade não é um apanágio dos ricos.

Também lançamos as cúpulas dos países sul-americanos com os países africanos (ASA) e com os países árabes (ASPA). Construímos pontes e políticas entre regiões que vivem distantes umas das outras, em que pesem as complementaridades naturais. Essa aproximação política resultou em notáveis avanços nas relações econômicas. O comércio do Brasil com países árabes quadruplicou em sete anos. Com a África, foi multiplicado por cinco e chegou a mais de US$ 26 bilhões, cifra superior à do intercâmbio com parceiros tradicionais como a Alemanha e o Japão.

Essas novas coalizões estão ajudando a mudar o mundo. No campo econômico, a substituição do G-7 pelo G-20 como principal instância de deliberação sobre os rumos da produção e das finanças internacionais é o reconhecimento de que as decisões sobre a economia mundial careciam de legitimidade e eficácia sem a participação dos países emergentes.

Também no campo da segurança internacional, quando o Brasil e a Turquia convenceram o Irã a assumir os compromissos previstos na Declaração de Teerã demonstraram que novas visões e formas de agir são necessárias para lidar com temas antes tratados exclusivamente pelos atuais membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Apesar dos ciúmes e resistências iniciais a uma iniciativa que nasceu fora do clube fechado das potências nucleares, estamos seguros de que a direção do diálogo ali apontada servirá de base para as negociações futuras e para a eventual solução da questão.

Uma boa política externa exige prudência. Mas exige também ousadia. Não pode fundar-se na timidez ou no complexo de inferioridade. É comum ouvirmos que os países devem atuar de acordo com seus meios, o que é quase uma obviedade. Mas o maior erro é subestimá-los.

Ao longo desses quase oito anos, o Brasil atuou com desassombro e mudou seu lugar no mundo. O Brasil é visto hoje, mesmo pelos críticos eventuais, como um país ao qual cabem responsabilidades crescentes e um papel cada vez mais central nas decisões que afetam os destinos do planeta.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

185) Vermeer Centrum Delft: meu mais novo achado.

Em poucas palavras, venho chamar a atenção para o Vermeer Centrum Delft.
Ótimo!

Vinícius Portella

Porto Alegre,
06 0417 ago 2010.


Welcome at the Vermeer Centrum

Johannes Vermeer is one of the best known artists from the Dutch Golden Age. His name is inextricably linked with Delft, the city in which he was born in 1632 and where he lived and worked all his life.
The Vermeer Centre offers a visual voyage of discovery through the life, work and city of Johannes Vermeer. Step into 17th century Delft, see samples from Vermeer's oeuvre, go in search of his mentor and find the stories behind the paintings.
In the studio, you will see how Vermeer approached his work and how he mastered the light, composition and colour in his paintings. The Vermeer Centre is housed on the historic site of the former St. Lucas Guild, where Vermeer was Dean of the painters for many years.
Exhibition "Love messages from Vermeer"
In many of Vermeers paintings, objects or specific details referring to "love" are hidden. In a new exhibition on the 2nd floor of the Vermeer Centre these symbolic messages are explained. More information is shown under "Now at the Vermeercentrum".

The master of light [vídeo: aqui]


Contact

Vermeer Centre Delft
Voldersgracht 21
2611 EV Delft
The Netherlands
T + 31 (0)15 - 213 85 88
E info@vermeerdelft.nl
W www.vermeerdelft.nl
Webmaster: Jesse Budding

terça-feira, 3 de agosto de 2010

184) O Capitalismo falhou nos países da ex-União Soviética? Reflexões sobre um debate; por Paulo Roberto de Almeida.

O capitalismo falhou nos países da ex-União Soviética?
Reflexões sobre um debate
Paulo Roberto de Almeida

Acabo de assistir a um debate na BBC World News, transmitido desde Kiev, na Ucrânia, reunindo políticos, acadêmicos e jornalistas dos países satélites ou integrantes da finada União Soviética, coordenado por uma jornalista da BBC. Os interessados em saber mais sobre esse debate podem acessar este site: http://www.intelligencesquared.com/, ou, se souberem russo, este aqui: http://www.debaty.org.

O ponto central da discussão era uma moção, votada pelos participantes e assistentes ao debate consistindo em saber se o capitalismo tinha falhado nesses países, e em torno dela os debates se desenvolveram durante quase uma hora. Antes do debate, as posições estavam quase uniformemente divididas em pró e contra essa moção: 40% a favor, 42% contra e 18% indecisos.

Após o debate, muito interessante, mas totalmente dominado por inimigos declarados do funesto regime comunista e da economia de planejamento centralizado, os votos mudaram ligeiramente, mas houve um crescimento dos a favor da moção, ou seja, daqueles que, sim, vêem nas falhas do capitalismo a responsabilidade pelos fracassos aparentes, ou visíveis, de vários países herdeiros ou saídos do grande império socialista: 41% a favor. O que cresceu, como fruto do debate, foram os contrários à moção, alcançando o percentual de 50%, com a diminuição consequente dos indecisos (apenas 9%).

O debate foi interessante, mas ele me permitiu também constatar um dos mais constantes e repetidos equívocos das pessoas, em geral, quando elas falam do capitalismo. Esse regime, ou sistema econômico, se quiserem, parece ser considerado como uma entidade dotada de poderes próprios, com capacidade para determinar o curso da economia e talvez até da política nos países tocados pela sua “graça”. Ou seja, o capitalismo é responsabilizado se, em lugar de uma democracia de mercado, capaz de assegurar plenamente as liberdades políticas, o que surge é um capitalismo mafioso, corrupto, com um Estado centralizado, ainda autoritário e comportamentos pouco virtuosos em quase todas as esferas da vida social.

Ora, o capitalismo, como sistema impessoal, não centralizado, não controlado por qualquer força política ou social – a despeito dos governos e lideres políticos que moldam, através de leis e comportamentos práticos seus contornos efetivos e suas características específicas – não pode obviamente ser responsabilizado pelas patifarias dos lideres políticos, que manipulam leis e instituições para servirem a seus objetivos pouco transparentes (enriquecimento pessoal, cartéis dominados por forças amigas, privilégios a grupos de interesse restrito, manipulação da imprensa, etc.).

O capitalismo é apenas uma forma de organizar forças produtivas, baseadas no empreendedorismo, para produzir mercadorias e acumular riquezas, apenas isso. Ele constitui, apenas e tão somente, uma pequena parte da sociedade, que vem ainda constituída por forças não capitalistas, como podem ser as associações sociais, o próprio Estado e uma série de forças sociais que não respondem aos critérios muito modestos da economia capitalista.

Ou seja, a falha das ex-repúblicas soviéticas em se transformarem em vibrantes democracias de mercado – como podem ser hoje a Polônia e a República Tcheca, em menor medida a Hungria – não tem nada a ver com o capitalismo, em qualquer de suas formas. Tem, sim, a ver, com a estrutura mafiosa dos sistemas políticos, dominada em grande medida por ex-apparatchiks e membros da velha nomenklatura comunista, que souberam se reciclar no capitalismo de Estado que eles mesmos manipulam para seu maior poder e glória.

O conceito de poder, aliás, explica muito do que houve, e confirma que os fracassos registrados não têm nada a ver com o capitalismo. Este é um sistema justamente descentralizado, feito de milhares de empresários, milhões de trabalhadores e consumidores, que não se encontram a não ser nos mercados e nas relações de trabalho, e não comandam nenhum poder, a não ser o de atrair os consumidores para os seus bens e serviços produzidos, do contrário são simplesmente expelidos do mercado. Existem, é claro, situações de monopólios e cartéis, mas que são geralmente feitos através de arranjos, ou omissões, do Estado, quando não produzidos diretamente pelos Estados (ou melhor, pelas pessoas que comandam ao Estado).

A lógica do capitalismo é a da dispersão do poder (econômico) e isso é uma característica essencial do sistema, do contrário não seria capitalismo. A lógica da política, ao contrário, é a concentração do poder, pois esta é a condição pela qual políticos podem se perpetuar no poder. Uma das piores situações que podem ocorrer é a união de capitalistas e políticos, pois os primeiros adoram um monopólio – ou seja, dominar o mercado e expulsar os concorrentes – e os segundo adoram a mesma coisa, em sua esfera peculiar de manipulação da vontade dos cidadãos.

Ou seja, o sistema capitalista não é especialmente moralista, só conseguindo ser benéfico para as pessoas quando o poder econômico se encontra disperso, o que ocorre geralmente nos verdadeiros sistemas de mercado, abertos a novos entrantes e a todas as concorrências. Nem o sistema político é moralista, só podendo ser contido com mecanismos de transparência, de controles e limites (checks and balances), de justiça independente, de controle cidadão, pelo exercício regular do voto, em um sistema aberto a novos competidores. O que os países da ex-URSS não tiveram, justamente, foi capitalismo e democracia. Sendo assim fica contraditório acusar o capitalismo de qualquer falha própria pelo fracasso dessas sociedades em realizarem o que se espera de sociedades normais. Elas ainda tem um longo caminho pela frente, mas o capitalismo é ainda uma parte pequena da resposta. Tudo depende da democracia e da livre expressão dos cidadãos, de preferência educados.

Paulo Roberto de Almeida

(Shanghai, 4 de julho de 2010)

domingo, 25 de julho de 2010

183) Inovação Social e Desenvolvimento: um caminho para o futuro, por Paulo Araújo.

Inovação Social e Desenvolvimento: um caminho para o futuro

Paulo Araújo

Uma nova perspectiva se abre para o trabalho dos Cientistas Sociais na esfera produtiva, nos governos, e no terceiro setor. É a inovação. Vários conceitos, de vários pontos de vista se colocam para tentar dar ares acadêmicos aquilo que nos diferencia desde o surgimento da humanidade, enquanto seres culturais inovadores. Há quem diga que a primeira grande inovação surgiu quando algum antepassado nosso decidiu não temer o fogo e tentou "tocá-lo" sem queimar-se usando alguma "ferramenta", um galho ou um osso, e percebeu que o instrumento se modificava e que poderia reter o fogo e transportá-lo, até sua domesticação que gerou aquecimento e o cozimento dos alimentos, modificando toda a nossa evolução como espécie. Também inovamos quando domesticamos pela necessidade de alimentação de cada vez mais indivíduos, seja pelas limitações climáticas seja pelo crescimento vegetativo, plantas e animais necessários ao nosso sustento. Inovamos na habitação, que passou de "tocas naturais" a casas com telhados, inovamos ao colocá-las umas sobre as outras nas cidades poupando território, enfim, somos definitivamente seres inovadores. Mas o que é inovação afinal? Gosto de minha definição simples, direta, clara, e objetiva: inovar é fazer diferente aquilo que faça a diferença! Enfim, a inovação não é apenas mudança, mas a transformação da maneira de fazer as coisas e do padrão da organização, anterior a sua introdução, produzindo ganhos. Nos mercados isso significa a criação de novas oportunidades e não apenas o aproveitamento das existentes. Significa, por exemplo, mesclar o teatro com o circo e superar os altos custos dos animais e o baixo preço dos ingressos, e conquistar para além do tradicional público infantil, os adultos sonhadores, como o fez o Cirque Du Soleil ao inovar na arte circense. Significa transformar o mercado quase inelástico do setor aéreo, numa opção comparável ao automóvel como fizeram a Southwest Airlines nos EUA e sua cópia brasileira, a Gol Linhas Aéreas, o nosso ônibus de asas. Ou como fizeram os Stúdios Pixar no mundo da animação, unindo tecnologia e criatividade, dando-a uma terceira dimensão, ou a Starbucks que encarou a venda de cafés como um estilo de vida e não como um simples produto corriqueiro (aliás, o café é péssimo, pelo menos para o gosto brasileiro). E tantos outros exemplos, como o que tentamos fazer com o conceito de Governança em Porto Alegre e em Natal, e com as metodologias de desenvolvimento local no terceiro setor, da Gestão Compartilhada de APLs - Arranjos Produtivos Locais, Brasil afora, ou como no conceito de FIB - Felicidade Interna Bruta em detrimento do PIB - Produto Interno Bruto como índice norteador dos esforços desenvolvimentistas, visando a felicidade ao invés do dinheiro, que já é tentado no Bhutão e que chama a atenção do PNUD para as próximas décadas pós "Objetivos do Milênio". Estamos entrando na era das idéias, onde "produzir" apenas produtos deixa de ser relevante, pois a China mostra ao mundo que é possível fazer de tudo, de maneira simples, barata, e rápida. Produtos passam a ser não apenas produtos, mas idéias, estilos de vida, modelos mentais conformadores dos padrões de consumo, representam, enfim, a "culturalização" das mercadorias. O consumo atingiu seu estado de "arte". A imagem vale mais que o real. A marca se sobrepõe ao produto. Disputar mercados nesse contexto é lutar como feras por um pedaço cada vez menor de alimento. Inovar significa encontrar o nicho, aquela "fatia" que ampliada e favorecida pelas redes sociais e pelas tecnologias de informação e comunicação, consegue ganhar escala e gerar riqueza. Aliás, "fatiar fino" e perceber as sutilezas das diferenças dos padrões de consumo passou a ser a regra na busca de novos mercados. Para ser capaz de inovar é preciso ser capaz de quebrar paradigmas, de pensar lateralmente, de romper as amarras do conhecimento compartimentalizado das disciplinas. É preciso formação eclética e visão ampliada. É preciso, perceber, sentir, ver de outra forma, e enfim, inovar. Os cientistas sociais têm, se assim perceberem, uma vantagem adicional nessa corrida inovadora, onde a cultura e as realidades locais são as matérias-primas dos produtos e dos mercados, que passam a coexistir numa lógica de espaço-fluxo, criadores-criaturas, forma-conteúdo, produto-consumo, ou consumo-produto. Trabalho agora, como Consultor Sênior de um Projeto Nacional do SEBRAE, em Pernambuco, com 10 ALI - Agentes Locais de Inovação, em 07 setores da economia: turismo e gastronomia, construção civil, gesso, tecnologia da informação e comunicação, móveis, e panificação, que têm o desafio de dentro das amarras de um projeto institucional com limitações na percepção do conceito ampliado de inovação e suas implicações na corporação, introduzirem uma cultura inovadora nas pequenas e micro empresas visando sua sustentabilidade. Sustentabilidade esta entendida como a introdução de elementos inovadores em gestão, nos processos, nos produtos e serviços, capazes de aumentar o faturamento e de favorecer sua sobrevivência no cenário competitivo traçado, através da diferenciação inovadora, seja em valor, seja na descoberta de novos negócios e nichos de mercado ainda inexplorados. É curioso ao falar sobre inovação, ver empresas se auto-proclamarem como inovadoras sociais. A 3M é um exemplo do que digo, dentre outros tantos centros difusores da inovação como o Innocentive(laboratório mundial de "cérebros"), Ninesigma, InnovationSeed, IDEO(design), etc. A inovação deverá estar na pauta das discussões sobre negócios e nas discussões sobre as reformas curriculares pelos próximos anos, assim como o gerenciamento de projetos e o empreendedorismo, começaram a figurar como assuntos a serem levados em conta na formação acadêmica dos futuros ocupantes dos postos de trabalho. O que fazemos aqui, é apenas antecipar o debate e chamar a atenção para os rumos a serem seguidos na direção da empregabilidade dos nossos pares, os cientistas sociais. Esperamos contribuir, através da nossa Federação Nacional dos Sociólogos, para que possamos unir a categoria e pensarmos um grande projeto capaz de inovar na nossa formação e proporcionar aos cidadãos brasileiros uma oportunidade de desenvolvimento de sua cultura inovadora, através de uma "nova política", a política exercida diretamente, pela "Governança Democrática". Uma política capaz de arar o terreno fértil do empreendedorismo e da emancipação econômica das parcelas excluídas desse debate sobre desenvolvimento. Demos aqui, apenas um pequeno passo inicial. Essa é a nossa vontade. Esse é o nosso novo desafio!

182) Semana do Gestor de Projectos - Ciclo de Conferências e Workshops sobre Gestão de Projectos 2010.

Poderemos nós, gestores de projetos, utilizar as lições do passado nos nossos projectos atuais e futuros?

Os desafios que se colocam hoje não são diferentes do contexto de outras épocas - igualmente difícil mas cheio de oportunidades.

Com a devida separação temporal, estamos perante as mesmas condicionantes: caminhos nunca antes traçados, recursos escassos, riscos, mudança etc.

E perante esses desafios comuns a todos os projectos e áreas de negócios, o que fará a diferença?

Este evento propõe um espaço para reflexão e partilha de experiências no âmbito da Gestão de Projectos, tendo como ponto de partida a reutilização do conhecimento adquirido pelos gestores ao longo dos anos, em que cada lição deve convergir numa acção destinada a melhorar nas organizações aspectos como a política, a visão, procedimentos e práticas.

Muitas organizações possuem processos de lições aprendidas, criados pelos sistemas ISO 9001 e outros, mas poucas são aquelas que os sistematizam e, de um modo geral, estes não são aplicados.

O que impede as empresas de aproveitar essas lições valiosas, de modo a reduzir o risco, diminuir os custos, a minimizar a "reinvenção constante da roda" e melhorar os processos dos negócios?

Estas são algumas questões que pretendemos abordar com este evento de Gestão de Projectos, contamos com a vossa presença, inscreva-se já.


           



Vídeo Promocional SGP 2010: aqui.
Sítio do evento: aqui.
Documento com o plano do evento (conferências, painéis e workshops), apresentação dos promotores, convite a patrocínios e contactos: aqui.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

181) Carta a um poeta. (Mário Quintana).

CARTA

Meu caro poeta,

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola tracada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos , aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? - perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: "eu vos trago a verdade", enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: "eu te trago a minha verdade." E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as disgressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escrevem os seus poemas?" A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: "Eu não te largarei até que me abençoes". Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técninca dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

Mario Quintana

180) Cuidado, por Mário Quintana.

CUIDADO
A poesia não se entrega a quem a define.
Mario Quintana (Caderno H)

quinta-feira, 15 de julho de 2010

179) A poderosa revelação pelo derrame de Jill Bolte Taylor.

Jill Bolte Taylor teve uma oportunidade de pesquisa que poucos cientistas cerebrais desejariam: ela sofreu um grave derrame, e observa enquanto suas funções de movimento, fala e autoconsciência entram em falência, uma a uma. Uma história incrível.

178) Omar Ahmad: Mudança política com papel e caneta.

"Políticos são criaturas estranhas," diz o político Omar Ahmad. E a melhor maneira de fazê-los notar sua reivindicação é escrever uma carta por mês. Ahmad mostra por que a correspondência antiquada faz mais efeito do que e-mail, telefone ou mesmo um cheque -- e ele compartilha quatro simples etapas para escrever uma carta que funciona.

177) Negro, eu?! (TV Pirata).

Um pouco de humor é sempre bom e aconselhável. Mais ainda em tempos de politicamente correto. Pretendo, no futuro, escrever uma série de considerações sobre este vídeo, abordando certas questões envolvendo o negro no nosso país e indo além do já roto "o negro não se reconhece como tal". Espero que a despeito de considerações mais sérias, o vídeo ainda provoque boas risadas àqueles que o virem aqui.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
15 0501 jul 2010.

176) A Ditadura do Discurso Único.

Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história

Nossas vidas, nossas culturas são compostas de muitas histórias sobrepostas. A escritora Chimamanda Adichie conta a história de como ela encontrou sua autêntica voz cultural - e adverte-nos que se ouvimos somente uma única história sobre uma outra pessoa ou país, corremos o risco de gerar grandes mal-entendidos.

175) Moda.

Não sei o que passa por minha cabeça, mas resolvi adicionar à lista ao lado o blog de Glória Kalil (para homem). Sempre fui um comprador compulsivo de livros e um leitor voraz, pouco me importando em saber o que ditava a moda. Entretanto, o contato com uma excelente pessoa me fez rever isso. A indústria da moda já é gigantesca no Brasil e deve crescer muito mais. Há também um fenômeno interessante ocorrendo: a moda está chegando às classes mais baixas, diferente de outros tempos em que era feita para o consumo das classes mais abastadas. Enfim, merece atenção.

Vinícius Portella

Porto Alegre,
15 0305 jul 2010.

P.S: para a rapaziada macha deste Brasil, recomendo a entrevista do figurinista Paulo Tesourão a Zeca Bordoada na TV Macho. Para quem quer saber de moda "nesse mundo cheio de frescura sem desafinar". 

174) Stephen Kanitz adere ao "Cala Boca, Galvão!" e ao combate à "Bullshit".

domingo, 11 de julho de 2010

173) Uma Final com Velásquez e Rembrandt no Banco de Reservas.


Hoje a Fúria foi maior que a Laranja Mecânica: a Espanha superou os Países Baixos na final da Copa do Mundo. Não gostei muito do jogo; marcado por faltas e cartões, não foi bonito de se ver. Eu esperava uma partida tecnicamente muito melhor, mais movimentada e muito menos truculenta. Gostaria de ter visto lances tais quais pinturas dignas de Velásquez ou de Rembrandt. A despeito disso, os espanhóis estão de parabéns por seu feito e se mostraram, de fato, os melhores do mundo, ainda que não tão incisivos quanto deveriam ser.


Vinícius Portella

Porto Alegre,
11 2118 jul 2010.